As mariposas e o mistério da luz.

on sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


Numa fábula árabe, as mariposas queriam entender sobre a luz. Elas desejavam saber o segredo de se sentirem tão fascinadas pela chama de uma vela. O que as deslumbrava? Seria a luz ou o calor? Pediram a ajuda da mariposa-rainha. Depois de meditar sobre o assunto, ela aconselhou que cada uma, individualmente, procurasse encontrar a resposta. Todas saíram procurando desvendar o mistério do fogo.

Passado algum tempo, uma mariposa voltou cega de um olho, afirmando que havia chegado perto demais e que a luminosidade da vela a tinha ofuscado, e que continuava sem entender os mistérios da luz. Outra voltou com uma asa queimada, reconhecendo que sua experiência não fora satisfatória. Por séculos, as mariposas não entenderam por que a luz as extasiava tanto. Até que um dia uma voou na direção de uma lamparina com tanta determinação que morreu queimada. Nesse dia, a mariposa-rainha falou: "Somente esta mariposa conheceu o mistério do fogo, mas nós nunca saberemos".

Moral: O encontro com o transcendente não pode ser contido na dimensão empírica. Toda experiência é inédita, pessoal, intransferível e requer radicalidade.

(Extraído do livro "Sem perder a alma" - Ricardo Gondim - pág. 121 - MK Editora)

Lembrete aos pastores.

on sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Os pastores estão esquecendo do principal. Não fomos chamados para ter ministérios bem-sucedidos, mas para continuar o ministério de Jesus, que foi amigo dos pecadores e compassivo com os pobres, e identificou-se com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos escalões das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel a todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama. 

(Ricardo Gondim em "O que os evangélicos [não] falam", pág. 141 - Editora Ultimato)

A mensagem fundamental da religião.

on segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Acredito que a mensagem fundamental da religião não é a de que somos pecadores porque não somos perfeitos, mas a de que o desafio de ser humano é tão complexo, que Deus não perde tempo esperando de nós a perfeição. A religião vem para purificar-nos de nosso sentimento de desvalia e para assegurar-nos de que, quando tentamos ser bons, e não conseguimos ser tão bons quanto desejávamos ser, não perdemos o amor de Deus... A religião é a voz que diz: "eu vou guiá-lo através desse campo minado das difíceis escolhas morais, compartilhando com você a percepção e a experiência das grandes almas do passado, e vou lhe oferecer o conforto e o perdão quando você estiver perturbado pelas escolhas dolorosas que fez".

(Harold Kushner em "O quanto é preciso ser bom?" - pág. 7 e 26 - Exodus Editora)

Aconteceu de novo.

on sábado, 18 de dezembro de 2010

Weslei Odair Orlandi

         Aconteceu de novo. Janeiro chegou, o carnaval passou, a páscoa foi celebrada, o inverno assustou quem não gosta de frio, ricos foram enterrados, mineiros foram soterrados – e também desenterrados, mulheres foram violentadas, casas desabaram, aviões caíram, trens descarrilaram, carros se chocaram, crianças morreram em filas do SUS, velhos foram maltratados, políticos corruptos foram desmascarados, bancos prosperaram, empresas faliram, casais se apaixonaram, famílias se desintegraram, geleiras derreteram, debates dividiram a opinião da população, mentiras foram contadas, verdades foram ocultadas, morros foram invadidos, bandidos fugiram, policiais reagiram, jovens protestaram, torcidas se enfrentaram, Dilma venceu, Serra perdeu... Nada mudou...
         Enfim, 2010 – como todos os outros 2009 anos anteriores – veio cheio de alegrias, tristezas, realizações, frustrações, protelações, surpresas (algumas boas, outras nem tanto), repetições (algumas vãs, outras necessárias), doenças, idas e também vindas. Até aqui nada de novo. Apenas os ciclos se repetindo segundo a ordem natural da vida. Não deveria ser assim. Bom mesmo seria não termos nada de ruim para contar, nenhuma violência, nenhum óbito precoce, ninguém enfermo, ninguém desempregado, ninguém solitário. Mas não. Isso ainda é utópico. Impossível. O ano que se despede, como todos os demais que já se foram, não deixará saudades. Apenas lembranças.
         Mas tudo bem. Acontece sempre. A cada dúzia de meses nos congratulamos, nos abraçamos, fazemos votos e pedidos, desejamos sorte, trocamos presentes e então, sem muita empolgação, conformados, mas também resolutos começamos tudo de novo.
         Andei pensando sobre isso o que me levou à seguinte conclusão: 2010 como também todos os demais anos não passa de uma grande metáfora, o que segundo Milan Kundera não é qualquer coisa – “As metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora”. Mas tudo bem, não estou de brincadeira. Falo sério, consciente e, espero, acertadamente.
         Afinal, para que servem as metáforas?
         Metáforas são recursos de linguagem onde uma coisa é utilizada para comunicar outra mais profunda. Sendo assim, 2010 é então uma sugestão nada modesta do que vem pela frente, do tipo de comportamento que devemos ter, da esperteza que devemos gerir, da paciência que devemos nutrir.
         Nunca se pode saber aquilo que se deve querer, esperar, fazer, recusar ou abraçar, quando não há comparações possíveis. Não é o nosso caso. Há uma verificação possível. Nada será vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se já tivéssemos assistido a uma mesma peça teatral inúmeras vezes, inclusive os ensaios, erros e dificuldades dos atores, assim é que 2011 vai chegar. O que foi voltará a ser. O que é deixará de ser. Nada de novo se avultará; apenas de novo se repetirá.
         É assim que devemos desembarcar de 2010, embarcarmos em 2011 e prosseguir viagem. Sem grandes ilusões, sem grandes desilusões. O que aconteceu provavelmente será esquecido pela grande maioria. Ninguém, exceto os historiadores, se importará com a antiguidade. Os mais novos então, muito menos. Tudo bem. Isso também não é novidade.
Uma coisa, entretanto, se fará necessário é será esse o meu pedido: não percamos a alma, não nos tornemos alheios, não nos conformemos com a dor do estranho. Se os anos se repetem e são iguais, que sejam também iguais e se repitam a fé, a compaixão, a sensibilidade, o altruísmo, a abnegação, a decência e, principalmente, o amor.
Tudo passa. Tudo passará. Mas, o amor não! Não o deixem morrer.
    Que venha o ano novo. Que venha o que vier. Viva 2011 e viva também o amor!

Não seja um "vaso cheio".

on sexta-feira, 26 de novembro de 2010






Leon Tolstoi em "O reino de Deus está em vós" - Editora Rosa dos Ventos.

Vale a pena ler de novo.

on quinta-feira, 4 de novembro de 2010



         Ricardo Gondim, pastor e escritor cearense radicado em São Paulo, tem a seguinte definição sobre o ato de ler: “Ler é bálsamo para as feridas do espírito, aragem nas ardências da alma, sedativo nas ansiedades do coração”.
         Jorge Luiz Borges, romancista e poeta argentino, também arriscou sua definição sobre o ler. Mas ele foi além e fez a seguinte afirmação: “Creio que reler é mais importante que ler, embora para reler seja preciso haver lido”.
         Ambos estão corretíssimos. Ler é tudo isso, e agora quem se aventura sou eu: Ler é ver para fora de si mesmo – e também para dentro – para os lados, para cima, atrás, ao perto, ao longe. Quem lê ganha olhos que veem não o visível, mas o invisível; não o objeto mas a subjetividade nele contida. A leitura erradica dos olhos existenciais as nuvens que embaçam a percepção da vida. Por isso no livro “Ler, pensar e escrever” Gabriel Perissé confirma: “Ler é bom demais. Ler é ótimo. Ler é mais do que necessário. Enriquecedor. Imprescindível”. Aliás, já que comecei citando máximas, Gondim tem ainda outra que é igualmente digna de nota: “Deus é escritor e os que querem se achegar a Ele devem aprender a gostar de ler.” 
         Foi com estas convicções que voltei mais uma vez à Bíblia Sagrada e reli o primeiro capítulo da carta paulina aos Romanos. Já li inúmeras vezes essa passagem, mas dessa vez resolvi saboreá-la melhor, sem pressa, com olhos bem abertos, detidamente; ruminando, como ensina a própria Bíblia (este é o significado literal e original do verbo “meditar” nas paginas do Antigo Testamento) cada palavra, frase e parágrafo.
         Resultado: não só tive uma leitura agradabilíssima como também avancei um pouco – ainda falta muito – na sua compreensão. De posse desse tímido progresso, rabisquei uma paráfrase dos versículos dezesseis a trinta e dois, a qual humildemente passo a compartilhar com você, leitor do Jornal Boas Notícias. Faça o seguinte: sem pressa, sem interpretações preconcebidas, engessadas e preocupadas com detalhes técnicos, leia, releia e tire também  suas conclusões. Não posso esperar mais do que o mínimo de você. Minha oração, contudo, é que essa releitura livre, devocional e nada estilizada possa contribuir para a sua caminhada. Leiamos – ou, ainda melhor, releiamos – então, o texto – Romanos 1:16-32:
         Eu não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois ele é o empenho máximo de Deus no que diz respeito à salvação de todo aquele que crê, seja ele judeu ou não.
         Nele, isto é, no Evangelho de Cristo está revelada não só a justiça de Deus como também sua ira no que diz respeito aos pecados dos homens. Estes, tendo todas as condições intelectuais e naturais de perceber fácil e inquestionavelmente a Deus bastando para isso olhar à sua volta, tentaram – e tentam ainda hoje – abafar, enterrar longe de seus olhos e apagar da memória tudo que possa ter qualquer relação direta ou indireta com Ele. Ao invés de buscarem conhecê-lo sendo-lhe gratos por tudo, preferiram desprezá-lo e até mesmo fazer-lhe oposição declarada; tudo isto em nome de uma pseudo-sabedoria.
         Dessa forma, Deus em uma manifestação justa de ira – e porque não até mesmo de misericórdia, uma vez que seu intuito ao ferir é também o de sarar – deixou-os livres para seguir seus próprios caminhos. Claro que isso os levou a um posicionamento absolutamente contrário à intenção original do Criador tanto nas questões espirituais como, e principalmente, nas relacionadas ao sexo; o que não deixa de trazer consigo conseqüências de diversas naturezas.
         Como eles optaram por essa independência espiritual, moral e intelectual de Deus suas mentes foram pervertidas a ponto de não suportarem qualquer verdade absoluta e também de não perceberem suas sandices.
          Isso posto, fica patente que a disposição mental deles é obviamente indigna de confiança em decisões morais. Não só o que eles fazem é totalmente errado como também aquilo que apóiam e incentivam. Aliás, diga-se de passagem, o apoio que dão ao erro torna-se, em certo sentido, ainda pior que a prática em si mesma uma vez que fortalecem e incentivam outros às mesmas perversões”.
         É isso. Ler é uma arte e, se você acabou de ler, então é também artista. Use então sua capacidade para utilizar, da melhor maneira possível, esse momento de leitura ou, para muitos, de releitura. Faça melhor: converta em ação cada palavra semeada em seu coração.

Receita para uma igreja bem sucedida.

on quinta-feira, 21 de outubro de 2010


Ricardo Gondim


Gabriel Andrada é jovem, seminarista, recém casado, e cheio de ideais. Evangélico desde o berço, diz que só se converteu de fato com 17 anos em um acampamento de carnaval. Desde a experiência de conversão, que o levou às lágrimas, participa de eventos evangelísticos de sua igreja. Agora se sente vocacionado para ser pastor. Ávido por ser “usado” por Deus, Gabriel matriculou-se em um pequeno instituto bíblico. 

Gabriel me conheceu na internet e escreveu pedindo ajuda. Precisa que eu lhe ensine o “caminho das pedras” para começar uma igreja do zero. Pensei, pensei!  Sem conhecê-lo, sem saber exatamente aonde o noviço quer chegar, resolvi correr o risco de responder. Disse que para uma igreja ser bem sucedida no Brasil são necessários a combinação de pelo menos dois, de quatro ingredientes. 

1) Um pastor carismático. Que tenha traquejo para falar em público com desenvoltura. Que cante afinado, ou que pelo menos comece os hinos no tom certo. Que tenha boa memória para decorar versículos e saiba citá-los sem tomar fôlego. Que seja simpático e bem humorado no trato pessoal.

2) Um bom prédio em uma boa localização. Que a igreja seja em um lugar de fácil acesso. Que tenha bom estacionamento. Que seja confortável, preferivelmente com cadeiras acolchoadas, climatizado com ar condicionado. Que os banheiros limpos não cheirem a creolina.

3) Acesso à mídia. Que a nova igreja tenha programa de rádio ou de televisão. Mas que a programação ressalte as qualidades especiais do líder como o apóstolo escolhido de Deus para os últimos dias. Que repita sem parar que a igreja é especial, diferente de todas as outras. É bom que o locutor fale em línguas estranhas (glossolalia) e profetize sobre detalhes da vida dos crentes. Que crie uma aura de “poder” pentecostal e curiosidade nas pessoas de comparecerem aos cultos. 

4) Teologia da Prosperidade. Que o pastor não tenha escrúpulo de prometer milagre à granel. Que a maior parte do culto seja gasto colhendo testemunhos de gente que enricou com as campanhas dos sete dias, com os jejuns da conquista, com as rosas santas, com os cultos dos Gideões, com as maratonas de oração. Quanto mais relatos, melhor. 

Ressalto. Gabriel não precisa se valer de todos os pontos para se tornar o novo fenômeno gospel brasileiro. Entretanto, sem o quarto ingrediente, ele não vai a lugar nenhum. Basta que combine qualquer um com o último e seguramente se tornará um forte concorrente nos disputadíssimo mercado gospel.


Entretanto, como vai concorrer com expoentes bem consolidados, terá que trabalhar muito. Talvez precise fazer o programa de rádio ou de televisão na madrugada.  No começo, para pagar o horário, terá que fazer merchandise de Ginka Biloba. Gabriel não deve ter receio de oferecer, por uma pequena oferta, lenço ungido, óleo sagrado ou água do rio Jordão. Se necessário, pode até vender cadernos escolares com a capa espiritual; tipo, um rapaz surfando e uma frase ao lado: “Cristo é ‘sur-ficiente’ para mim”.
Não sei se Gabriel entenderá a minha ironia. Caso leve os meus conselhos a sério, logo teremos uma nova igreja de nome bizarro. Contudo, quando estiver nos píncaros da glória, todos saberão que a trajetória de Gabriel Andrada não foi tão espiritual quanto se poderia supor. “Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Shakespeare.


Soli Deo Gloria.


(Fonte: www.ricardogondim.com.br)

O inferno e eu... e também você!

on quarta-feira, 13 de outubro de 2010


Em todas as discussões acerca do Inferno, devemos conservar o tempo todo diante dos olhos a condenação possível, não a de nossos inimigos nem a de nossos amigos (uma vez que podem perturbar a razão), mas a de nós mesmos. [A discussão acerca do inferno] não versa sobre sua mulher ou seu filho, tampouco sobre Nero ou Judas Iscariotes: ele versa sobre mim e você.




(C.S. Lewis em "O problema do sofrimento", pág. 144 - Ed. Vida)

Razão porque as aflições não podem cessar.

on terça-feira, 12 de outubro de 2010


Dessa forma, a terrível necessidade da tribulação mostra-se por demais evidente. Deus me teve por apenas 48 horas, e somente à força de me tirar tudo, mas basta que Ele guarde a espada por um momento para eu me comportar como um animal de estimação quando o banho odiado termina. Sacudo-me até secar-me ao máximo e corro para reassumir minha cômoda imundície, se não no monte de esterco mais próximo, ao menos no mais próximo canteiro de flores. Essa a razão por que as aflições não podem cessar enquanto Deus não nos vir transformados ou que não há esperança de transformação para nós.


(C.S. Lewis em "O problema do sofrimento", pág. 121 - Ed. Vida)

Meu twitter

on segunda-feira, 11 de outubro de 2010



Acesse e siga: www.twitter.com/wesleiorlandi

Não deixe de ser o que deve ser, mesmo que...

on sexta-feira, 8 de outubro de 2010

No lar de crianças pobres de Calcutá, na Índia, há, afixado no muro um texto que afirma o seguinte:
As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas.
Ame-as mesmo assim!
Se você tem sucesso nas suas realizações, ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos.
Tenha sucesso mesmo assim!
O bem que você faz será esquecido amanhã.
Faça o bem mesmo assim!
A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável.
Seja honesto e franco mesmo assim!
Aquilo que você levou anos para construir pode ser destruído de um dia para outro.
Construa mesmo assim!
Se você der ao mundo o melhor de si mesmo, você corre o risco de se machucar.
Dê o que você tem de melhor.
Mesmo assim!

Por falta de assunto.

on segunda-feira, 4 de outubro de 2010

                                                                   Weslei Odair Orlandi

         Por falta de assunto, resolvi escrever. Mas escrever o quê? Assunto não falta, o que falta é saber sobre que assunto escrever. Assunto é aquilo de que se trata, que é matéria ou objeto de consideração. Assunto é aquilo que desperta interesse, que chama atenção.
         Resolvi escrever. Mas escrever o quê? Assunto não falta, o que falta é saber que assunto interessa quem lê. Existem muitas formas de assunto e muitos assuntos sem forma, sem informação, sem eira nem beira, que servem pra tudo menos pra ser chamado de assunto.
         Outro dia me vi em apuros. Encontrei-me com um amigo, desses que acha assunto e tempo pra tudo. No primeiro instante decidi que não iria agüentar muito daquela tagarelice sem fim, verborragia inútil, palavrório em cascata, mas com poucas idéias. Maquinei um jeito de escapar; disse a ele que o assunto era bom, mas que precisava ir embora. Ele, de empolgado que estava, nem me ouviu, ou se ouviu, fingiu não ouvir. Continuou falando, e falando falou até que, de tanto falar se engasgou com saliva. Nem assim se deu por vencido: lembrou-se de um outro dia em que se engasgara com uma semente de jabuticaba. “Foi assunto pra semana inteira”, falou meu amigo ainda pigarreando por causa do engasgo recente.
         Sentei-me e, resignado, tentei encontrar conforto nas palavras de Tiago, o apóstolo: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”.
         “Uma hora ele vai se cansar” – pensei, e antes que pudesse fazer alguma interpolação, vi aproximar-se de nós um outro rapaz, um outro amigo meu que também gosta de falar e acha assunto e tempo pra tudo. Foi pura sorte, na verdade um golpe de misericórdia que pôs fim ao meu sofrimento. Eles, de tão empolgados que ficaram com os assuntos do dia, acabaram se despedindo de mim, misturando adeus com risada, risada com salada de fruta (que era o assunto que eles haviam começado a tratar) e então se foram. E eu, bem... Eu, depois de tanto ouvir meus amigos tarelos acabei descobrindo que em vez de falar queria escrever.
         Então, tentei escrever. Mas, escrever sobre o quê?
         “Assunto não falta – argumentei mentalmente – o que falta é saber sobre que assunto escrever”. E depois, de tanto pensar, acabei escrevendo sobre a incapacidade de escolher sobre que assunto falar, quando não se sabe escolher um assunto que seja assunto para o assunto em questão.

A liberdade requer independência.

As inexoráveis "leis da natureza", que operam a despeito do sofrimento ou do merecimento humano e que não são afastadas pela oração, parecem, à primeira vista, fornecer um forte argumento contra a bondade e o poder de Deus. Pretendo alegar que nem mesmo a Onipotência poderia criar uma sociedade de almas livres sem ao mesmo tempo criar uma Natureza relativamente independente e "inexorável".
(...)
A liberdade de uma criatura deve significar liberdade de escolha, e esta implica a existência de coisas as quais escolher. Uma criatura sem ambiente não teria escolhas a fazer, de modo que a liberdade, a exemplo da consciência de si mesmo (se é que elas não são, na verdade, a mesma coisa), uma vez mais requer para o eu a presença de alguma coisa além do eu.

(C.S. Lewis em "O problema do sofrimento", pág. 36 - Ed. Vida)

Sobre o prazer e a alegria.

on terça-feira, 28 de setembro de 2010

O prazer só existe no momento. A alegria é aquilo que existe só pela lembrança. O prazer é único, não se repete. Aquele que foi, já foi. Outro será outro. Mas a alegria se repete sempre. Basta lembrar.


(Rubem Alves em Um mundo num grão de areia - pág. 70. Ed. Verus)

Sobre o sofrimento.

on segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Se uma pessoa querida morre e o coração não sangra, se um golpe duro da vida atinge a quem se ama e os olhos não choram, se uma desgraça cai sobre o povo e a alma não fica triste, se o fogo consome as florestas e o corpo não queima também, é porque algo está errado com a gente.
Quem é feliz sempre, e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. Toda experiência de amor traz, encolhida no se ventre, à espera, a possibilidade de sofrer.
Assim, a receita para não sofrer é muito simples: basta matar o amor.


(Rubem Alves em Um mundo num grão de areia, pág. 23-24. Ed. Verus)

Saul: seus medos, coragem e covardia.

on terça-feira, 14 de setembro de 2010

       

Weslei Odair Orlandi

Tanto a amizade, quanto a cordialidade e a  admiração de Saul para com o jovem Davi foram de curta duração. Não porque Davi tenha cometido algum delito, traição ou deslealdade, mas porque o rei de Israel era interiormente doente.
         A julgar pela descrição física Saul, o primeiro israelita a usar uma coroa real, tinha todos os predicados para ser um monarca de sucesso e respeitado por todos. Jovem de boa aparência, sem igual entre os israelitas – os mais altos batiam nos seus ombros – Saul logo foi confirmado como líder da nação e o causador de momentos de grande alegria entre o povo. Tratava-se então, de um novo momento de estabilidade política e econômica para Israel. Logo, porém, surgiram as primeiras crises. Primeiro veio sua precipitação ao oferecer ele mesmo holocaustos em Gilgal, desobedecendo a ordem clara de Samuel para aguardá-lo. Depois veio seu juramento precipitado em Gibeá o que quase resultou na morte de seu filho Jônatas. Mais tarde outro ato de desobediência a Samuel que ordenara a morte imparcial de todos os Amalequitas tornou ainda mais complicada a situação do rei. Isso, porém, não era nada se comparado ao que ainda estava por vir. Saul se revelaria ainda mais problemático, perigoso e surpreendentemente enfermo.
         Certo dia, quando em guerra contra os filisteus e acuados por Golias, o gigante, o exército de Saul achava-se imobilizado e apavorado, Davi o “ninguém que ninguém notara, exceto Deus”, saiu das sombras do anonimato e com uma pedra desbancou a fama do herói filisteu matando-o e decepando-lhe a cabeça. Iniciava-se nesse dia a breve afeição de Saul pelo jovem pastor de ovelhas. Convocado a permanecer na companhia do rei, Davi logo se tornou amigo de seu filho com quem fez um acordo de amizade. Disciplinado e dado à obediência fazia com grande habilidade tudo quanto Saul ordenava o que lhe rendeu em pouco tempo um posto elevado no exército. Um dia, porém, quando voltavam para casa, Saul ouviu o cântico das mulheres que saiam para saudá-los e o refrão que atribuíam a ele milhares e a Davi dezenas de milhares. Dar-se-ia nesse instante o rompimento da frágil simpatia do rei por seu súdito. A partir desse dia seu coração nunca mais se livraria da inveja, do ódio e do medo de Davi.
         Saul passou por algumas metamorfoses infelizes em relação a Davi: de amigo a inimigo; de admirador a perseguidor; de rei a caçador; de sogro a desafeto político. Isso sem contar outros aspectos menos visíveis de seu comportamento volúvel. Saul nunca mais conseguiu voltar à normalidade. Como que destinado a descer sem misericórdia a escada da rejeição ele se entregou de corpo e alma a alimentar seu desejo sórdido de aniquilar quaisquer traços de seu inimigo imaginário.
         Não era preciso agir assim; Davi nunca ambicionou depô-lo de sua posição tampouco desejou a sua morte. Seus temores eram de natureza infundada, sua sede por destruir a vida de seu genro e melhor soldado era apenas o resultado de um coração doente, amador, pouco experimentado na arte da boa convivência e principalmente destituído de intimidade com Deus. A soma desses desatinos de Saul foi a mola propulsora para o temor descabido que inflamou por anos o seu coração. Na mesma proporção em que o temia enchia-se de coragem para extravasar sua sandice. Um medo corajoso que dava lugar a uma coragem covarde. Foi assim que, ladeira abaixo, Saul gravou na memória de todos sua biografia infeliz. Uma vida ordinária que não suportou o peso da convivência ao lado de pessoas extraordinárias.
         Nem é preciso ir mais longe para tentar dizer o que se faz óbvio a essa altura: é melhor viver despretensiosamente uma vida de amizade e aceitação confirmando-se como um ninguém na multidão do que finalizar os poucos dias que nos são dados conhecidos por todos, mas sem ser amado por ninguém. Foi esse o resultado final da vida insossa do primeiro monarca de Israel. Atormentado, vencido pelo medo e dono de uma coragem covarde, Saul teve que, ele mesmo, apagar as luzes do seu mundo conturbado. A morte suicida de Saul fez descer a cortina sobre o que é irremediavelmente mortal – o homem – porém, amargurado, vencido e infeliz foi, logo depois, apresentado ao mundo dos imortais onde vive desde então a plenitude e a consumação dos seus erros. Pobre Saul!

Meu amor pelo livro.

on sexta-feira, 3 de setembro de 2010

                                 
                                 Ricardo Gondim

Meu pai lia obsessivamente. Todas as vezes que o surpreendia, abrindo a porta do seu quarto sem bater, eu o flagrava com um livro na mão. Ele assinava pelo menos duas revistas de notícias semanais e vários pasquins. Ele comprava folhetos subversivos não sei onde e os trazia perigosamente para casa. Papai era professor de história, mas seu fascínio maior era a II Guerra Mundial. Em sua biblioteca, sobravam tomos, fotografias e artigos sobre o conflito que marcou sua infância.
Só há um tipo de consumismo que não me oponho: comprar livros. Aliás, todas as vezes que entro numa livraria, gasto mais do que posso – divido em prestações o que não consigo pagar à vista. Não cogito fazer qualquer viagem de avião sem ler o tempo todo. Só há um momento que odeio o sono, quando estou avidamente envolvido com um romance.
Antigamente eu resumia minha leitura a textos conceituais, de não-ficção. Por causa da minha necessidade de aprender a escrever – faltei às aulas de português do Liceu – aprendi a devorar literatura brasileira e portuguesa. Hoje abocanho com igual apetite, biografias, romances, poesias, ficção científica e contos. Os livros grossos já não me metem medo. Sou capaz de perseverar em mil páginas.
Tenho tanta avidez de compensar os anos perdidos em que não abri uma página, que faço vigília até altas horas da madrugada para terminar um livro – só não passo a noite em claro, porque, casado, obedeço ordens superiores, que zelam pela minha saúde.
Acredito que o livro faz parte da conspiração divina. Quando Deus quis falar aos homens, não fez pirotecnia celestial, apenas inspirou homens que escrevessem. Por isso, todas as vezes que Moisés subia a montanha, Jeová mandava que trouxesse um bloco de anotações. Tem razão a frase latina: Scripta manent, verba volant – “O escrito fica, as palavras voam”.
Digo sem medo: todo livro é sagrado. O livro é relicário santo onde se registram as memórias, as fantasias, as angústias, os medos, as bravuras, a grandeza e os pecados da humanidade.
Não existe livro impuro, apenas o mal escrito. Literatura é a mais completa de todas as artes. Se um personagem numa pintura, escultura ou cinema aparecer contemplando um relvado, ninguém conhecerá com exatidão o que ele pensa. O bom escritor, contudo, discerne não só os seus pensamentos como o que move suas entranhas.
Louvado seja o livro, pois sem ele não conheceríamos o amor trágico de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta e de Bentinho e Capitu; jamais celebraríamos a coragem enlouquecida de Dom Quixote; não saberíamos sobre a força do ciúme em Otelo; e nunca partilharíamos da coragem do capitão Acabe.
Jorge Luis Borges afirmou que, em sua vida, procurou mais reler do que ler: Ele dizia: “Creio que reler é mais importante que ler, embora para reler seja preciso haver lido”.
Borges, já sem enxergar, fez uma linda declaração de amor ao livro:
“Continuo fingindo não ser cego; continuo comprando livros, continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 (ele escreveu isso em 1978) da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença dessa obra em minha casa; eu a senti como uma espécie de felicidade. Aí estavam os vinte e tantos volumes, com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver; e, no entanto, o livro estava aí. Eu sentia como que uma gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que temos, nós, os homens”.
A humanidade não vive só de pão, mas de palavras. No livro não se acha sabedoria pura e simples, nele está a fonte da felicidade. Deus é escritor e os que querem se achegar a Ele, devem aprender a gostar de ler.

Soli Deo Gloria.

Livros que li em julho e agosto 2010.

on segunda-feira, 30 de agosto de 2010









Julho

1. Muito além da grande muralha - Randy Alcorn (Betânia)
2. O que estão fazendo com a igreja  - Augustus Nicodemus (Mundo cristão)
3. A morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstoi (Editora 34)

Agosto

1. A insustentável leveza do ser - Milan Kundera (Nova Fronteira)
2. Salvos da perfeiçao - Elienai Cabral Jr. (Ultimato)
3. A varanda do frangipani - Mia Couto (Cia. das Letras)

Eu, pássaro

on sábado, 28 de agosto de 2010



Weslei Odair Orlandi


Quem és tu, pássaro
Voando assim tão alto
Tão calmo
Tão solitário
Visível
(Invisível)
Dono do céu
Do azul
Do sul
Do norte
Tão forte
Tão frágil
Tão ágil

Quem és tu, pássaro
Voando assim tão alto
Roçando o céu
Rasgando o véu
Leva-me contigo
Amigo
Pra o lugar o vento vai

Quem és tu, pássaro
Voando assim tão alto
Senão prenúncios do adeus
Da viagem: minha, sua, nossa


Quem és tu, pássaro
Voando assim tão alto
Que vem
Que vai
Altaneiro
Livre
Vendo o nada
O tudo
O mundo
O aqui
O ali

Quem és tu, pássaro
Voando assim tão alto
Senão eu
Que vou
Que venho
Que tenho
Que sou
Que não sou
Estou:
Hoje aqui
Depois lá
No céu
Pássaro livre
Assim
Sem fronteiras
Sem olheiras
Só pássaro
Voando
Passando
Flutuando
Sem passado
Sem presente
E...
Sem futuro


8 motivos para apostar nos livros

on sexta-feira, 27 de agosto de 2010




Quem não lê bons livros não exerce influência alguma sobre quem não saber ler.



Li a lista dos 8 motivos para apostar nos livros essa semana na Revista Aventuras na história.Conheça-os você também:

1. Amplia o conhecimento geral.
2. Melhora a comunicação.
3. Estimula a criatividade.
4. Aumenta o vocabulário.
5. Emociona e provoca.
6. Muda sua vida.
7. Faz pensar nas coisas.
8. Facilita a escrita.

"Os benefícios da leitura são incontáveis. Por isso ler sempre é fundamental."

Meu voto vai para...

on segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Weslei Odair Orlandi

Sou ministro, mas não político. Meu ministério é outro. Minha vocação pastoral tem mão única. Embora respeite meus colegas que optam por viver uma vida dupla – refiro-me ao ministério e à política – não penso jamais em enveredar-me por esse universo às vezes sombrio demais para não causar medo. Ainda assim, penso em política. Honrosamente também sou brasileiro, eleitor e parte dessa história.

Apesar das sucessivas desilusões com a política e seus políticos, nossa fé é invencível; não desistimos nunca. Basta sabermos que é ano de eleições municipais, estaduais ou para presidente, para que voltemos a sonhar novamente. Mesmo que boa parte dos discursos não passe de retórica meticulosamente arquitetada e que não apresente nada de novo, reunimos forças para continuar acreditando e lá vamos nós em mais uma aposta.

Para os políticos (ainda acredito em exceções) parece que somos mesmo massa de modelar; bastam alguns abraços seguidos de impostação vocal carismática para que as metas eleitorais sejam atingidas. Para os eleitores (que somos nós, a turma na outra ponta da corda) resta sonhar, votar, esperar, deixar correr e aguardar novas eleições. É assim que, tristemente tem sido, em grande parte, até agora. Ao que parece, gostamos mesmo é de pizza!

Creio ter chegado a hora de repensarmos esses nossos gostos pouco saudáveis. Nesse contexto, a Igreja, que nem sempre quer se envolver com as “coisas desse mundo”, tem falhado. Argumentar, pensar, orientar e viabilizar conhecimento político aos fiéis para podermos então mudar não é só uma questão de consciência; é também um dever cívico e cristão.

No livro “Diálogos criativos”, Frei Betto faz uma observação no mínimo exata (talvez franca demais para alguns) sobre nossa falta de bate-papos sobre o assunto. Segundo ele “política é como sexo: quanto menos se fala em casa e na escola, mais bobagem se faz na rua”. Triste. Medonhamente lastimoso. Não dá para fechar os olhos (o que, aliás, fazemos muito) e fingir que isso não é verdade. Ou admitimos nosso pecado de omissão e de sucessivas “bobagens” e tomamos como obrigação a tarefa de ensinar o povo ou então, paciência. Nesse caso restará resignar-se e deixar que os maus continuem a nos governar. Afinal, quem se importa?

Entendam-me. Meu objetivo básico aqui é simples: esclarecer que não podemos nos limitar a orar pelos que estão em eminência (o que também não fazemos com a assiduidade necessária) deixando para Deus o que é dever nosso: o voto com seriedade. Enquanto não nos libertarmos das paixões arrebatadoras por indivíduos pouco qualificados que movem a massa votante no Brasil; enquanto não deixarmos de nos importar com popularidade, abraços, carismas e sorrisos e, enquanto não passarmos a votar movidos pela razão e não pela emoção, seremos sempre uma nação frágil e ridiculamente manipulável. Não será, obviamente, de uma hora para outra que isso vai mudar. Não. Isso leva tempo, muito tempo. Já temos lastro histórico suficiente para sabermos que as mudanças são implacavelmente lentas. Não acredito, porém, que chegaremos a um nível mínimo de maturidade política se não dermos em algum dia (por que não dia três?) o primeiro passo.

Precisamos nos lembrar sempre (e também nos convencermos de tal fato) que sim, por detrás dos rótulos da propaganda há uma máquina poderosa e pouco sensível chamada marketing e que ela não está de todo preocupada com os conteúdos programáticos dos candidatos, mas sim em fazer uma boa campanha rumo à vitória não só dos postulantes, mas também dela própria, o que lhe garantirá fama, serviços futuros e respeito no mercado. Essa não é uma ação isolada, mas generalizada, teimosamente presente e publicamente (às vezes nem tão publicamente assim) assumida.

A nós cumpre saber que os sonhos não foram patenteados por Martin Luther King. Nesse ano também devemos sonhar com algo mais para o nosso país. O meu sonho é o de que no fim das contas tenhamos podido ao menos nos libertar das garras sutis dos marqueteiros. Tomara que a máxima dos publicitários segundo a qual a melhor propaganda é sentença de morte para o mau produto funcione mesmo.

Não me iludo com um futuro sem males. Não ignoro nossas limitações e muito menos a escatologia bíblica. Não acredito em descontaminação absoluta. Não penso que nosso Brasil possa chegar ao ideal paradisíaco sem serpentes que falam. Acredito, porém, que há um mínimo necessário – isso que chamamos de consciência política - que ainda não estamos exercendo e é por ele que luto.

Insisto em dizer que não sou político. Não peço voto e por enquanto pretendo fazer valer o direito de não precisar me posicionar publicamente. Entretanto, peço aos meus irmãos e amigos eleitores que nesse ano façamos escolhas menos humilhantes. Não admitamos outro caminho senão o da elevação moral. Ou isso, ou nossa dignidade já não será mais tão digna assim.

Que no dia 03 de outubro mandemos um recado claro: aprendemos votar. Eu, mesmo sem a fatídica exibição política obrigatória no rádio e na televisão, já fiz as minhas escolhas. Ao menos já sei em quem não vou votar.

Nesse ano, não será tão simples dizer “meu voto vai para...”. Por isso, um último apelo se faz necessário antes do ponto final: Senhores candidatos, parem de querer nos enganar! (.)

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on sexta-feira, 13 de agosto de 2010


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A gente se tuíta!!!

Esta é toda a nossa liberdade.

on sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O que Fânia me escreveu era mais ou menos o seguinte: que a hereditariedade e o meio que nos alimenta, assim como a nossa classe social, são como as cartas de baralho que nos são distribuídas aleatoriamente, antes de o jogo começar. Até aí não há nenhuma liberdade de escolha - o mundo dá, e você apenas recebe o que lhe foi dado, sem nenhuma outra opção.

Entretanto, assim sua mãe me escreveu de Praga, a grande pergunta é o que cada um de nós consegue fazer com as cartas recebidas. Pois há os que jogam muito bem com as cartas nem tão boas, e há, pelo contrário, aqueles que desperdiçam e perdem tudo, mesmo com cartas excepcionais! E esta é toda a nossa liberdade...

Amós Oz em "De amor e trevas"

Viver


Weslei Odair Orlandi


Ter vida; existir; durar; perdurar. Estas são algumas das principais definições do verbo intransitivo “viver”. Parece simples, nem precisa de preposição ou de complementos. Não nos iludamos, porém; a completude para por aí; sequer consegue extrapolar as fronteiras do Aurélio.

Viver não é simples. Não. Viver é complexo, profundo, às vezes doloroso, lamurioso. Mas também tem seus contornos de leveza, felicidade intensa, de recompensas inebriantes. Eu gosto de viver. Apesar de tudo viver é bom, muito bom. É verdade que nunca se pode saber ao certo como se viverá, pois a vida é inédita a cada milésimo de segundo. Milan Kundera tem razão: “tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”. E prossegue: “Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?” Gosto da sua conclusão: “É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro”.

Um esboço sem quadro, isto é, a vida não poderá jamais ser revista, repensada, refeita e só então emoldurada e vivida. Viver é viajar numa estrada sem retornos. Segundo a Bíblia a duração da vida é quase nada se comparada ao desejo teimoso que todos têm de ficar vivo. A vida só vai, se esvai e nunca volta. Setenta anos e o que resta são alguns minutos de acréscimo concedidos ou não pelo Supremo Juiz.

Na medida em que vivemos também morremos. E por isso, perdoem-me, mas simplesmente não dá para falar da vida sem também pensar na morte. Algumas pessoas dizem que eu insisto demais nesse assunto. Certamente que eu, talvez, possa cometer alguns excessos. Mas a verdade é que não tem jeito. A vida e a morte sempre estiveram presentes em todos os tempos. No primeiro diálogo entre Criador e Criatura já se falou sobre viver e morrer. Desde então nunca mais se pôde ignorar um em detrimento do outro.

Tenho lido sobre viver e morrer. Esse assunto me fascina, me seduz, me envolve. Verdade seja dita eu não gosto de ler sobre a morte. Se a estudo é porque quero entender a vida. Assim quando falo da morte não é dela que quero me aproximar. Quando me debruço sobre os livros e me vejo eviscerando a dita cuja me descubro na verdade é lutando para afastar-me dela. Peço licença para usar aqui as palavras de Lya Luft e poder definir melhor esse parágrafo: “nem é da morte que falo quando escrevo a palavra “morte”: falo da vida, que um dia será declarada irreversível e irrevogável, com tudo o que fizemos e deixamos de fazer até a hora daquela enigmática visita: desde o nosso primeiro grito ao chamado último suspiro”.

Estamos todos passando nesse minuto e também nos minutos seguintes por um processo irreversível de vida e morte. Todos nós temos entrelaçados à alma duas linhas que se opõem. A primeira é descendente, empurra para baixo, para o fim, para a terra. A segunda é ascendente, promove, aponta para o céu. A primeira nos lembra da morte, a segunda nos lembra da vida. A primeira nos condena, a segunda nos liberta. A primeira nos limita, a segunda reforça a certeza da eternidade. Viver é mesmo subir uma escada rolante pelo lado que desce. Li essa frase em algum lugar.

É isso. Estamos na fila de espera aguardando a próxima chamada. Alguns serão chamados primeiro, outros só daqui a pouco. Não temo esse dia nem temo por mim mesmo. Meus temores são outros. Temo por aqueles que, entremeado às linhas da vida e da morte dão espaço à incerteza, à protelação e à indiferença.

Viver aqui é sublime, mas efêmero e ilusório. A verdadeira vida, aquela que só o além revelará e que nada tem de efêmero e ilusório, só conhecerá aqueles que se deixarem conquistar pelo Doador da Vida. À margem disso a noite será eternamente fria, carregada de penúria, remorsos e acusações.

Viver é um risco, mas correr o risco de morrer sem certeza de vida eterna é mais arriscado ainda. Assim, corra o risco de viver e se julgar necessário risque de sua agenda o que não for importante. Ignore, deixe para depois, descarte, divirta-se; só não brinque com a vida... E também com a morte.

"A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera.

on segunda-feira, 2 de agosto de 2010


"As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia, inclusive a guilhotina". - pág. 10

"Nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-las nas vidas posteriores [mesmo porque elas não existem].

(...)
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem comparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo "esboço" não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro" - pág. 14

"As metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora". - pág. 16

"Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra "compaixão" com o prefixo com - de a raiz passio, que originariamente significa "sofrimento". (...) Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre". - pág. 25

Vale a pena ler essa paráfrase.

on sábado, 10 de julho de 2010



Weslei Odair Orlandi

Leia essa paráfrase de Romanos 1.16-32 e veja quantas verdades há nesse texto bíblico:
Eu não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois ele é o empenho máximo de Deus no que diz respeito à salvação de todo aquele que crê, seja ele judeu ou não.
Nele, isto é, no evangelho de Cristo está revelada não só a justiça de Deus como também sua ira quanto aos pecados dos homens. Estes, tendo todas as condições intelectuais e naturais de perceber fácil e inquestionavelmente a Deus bastando para isso olhar à sua volta, tentaram – e tentam ainda hoje – abafar, enterrar longe de seus olhos e apagar da memória tudo que possa ter qualquer relação direta ou indireta com Ele. Ao invés de buscarem conhecê-lo sendo-lhe gratos por tudo, preferiram desprezá-lo e até mesmo fazer-lhe oposição declarada; tudo isto em nome de uma pseudo-sabedoria.
Dessa forma, Deus em uma manifestação justa de ira – e porque não até mesmo de misericórdia, uma vez que seu intuito ao ferir é também o de sarar – deixou-os livres para seguir seus próprios caminhos. Claro que isso os levou a um posicionamento absolutamente contrário à intenção original do Criador tanto nas questões espirituais como, e principalmente, nas relacionadas ao sexo; o que não deixa de trazer consigo conseqüências de diversas naturezas.
Como eles optaram por essa independência espiritual, moral e intelectual de Deus suas mentes foram pervertidas a ponto de não suportarem qualquer verdade absoluta e também de não perceberem suas sandices.
Isso posto, fica patente que a disposição mental deles é obviamente indigna de confiança em decisões morais. Não só o que eles fazem é totalmente errado como também aquilo que apóiam e incentivam. Aliás, diga-se de passagem, o apoio que dão ao erro torna-se, em certo sentido, ainda pior que a prática em si mesma uma vez que fortalecem e incentivam outros às mesmas perversões.

Máximas de Brennan Manning sobre "Confiança"

on sábado, 12 de junho de 2010


1. Confiança é nossa dádiva que devolvemos a Deus, e ele, a considera tão maravilhosa, que Jesus morreu por amor a ela.

2. Confiança inabalável é uma coisa rara e preciosa, pois quase sempre exige um grau de coragem que beira o heroísmo.
3. É preciso coragem de herói para confiar no amor de Deus não importa o que nos aconteça.
4. O ato de confiar com base na graça é a grande decisão da vida.
5. O caminho da confiança é um movimento em direção à obscuridade, ao indefinido, à ambiguidade, e não a um plano indeterminado e claramente delineado para o futuro. O plano seguinte revela-se a partir do discernimento de Deus agindo no deserto do momento presente.

O Deus de Israel, os deuses do Egito ou deuses de Canaã?

on quinta-feira, 3 de junho de 2010


Weslei Odair Orlandi

“Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates [os do Egito], ou aos deuses dos amorreus [os de Canaã], em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha casa serviremos ao Senhor”

Servir única e exclusivamente o Deus de Israel deveria ser simples, óbvio e natural, mas não é. Que o digam nossos antepassados, irmãos de fé e de luta.

A nação de Israel foi essencialmente formada entre deuses e crenças por séculos cultuados, temidos e respeitados. Ao longo dos árduos anos de escravidão no Egito o conceito monoteísta de Abraão foi se tornando mais e mais tênue. Na medida em que um século dava lugar a outro (quatro deles ao todo) a clareza teológica que possuíam os descendentes de Jacó foi se esvaindo e os contornos da força politeísta dos egípcios tornando-se cada vez mais definidos. No pensamento dos escravos começou a surgir algo como “deus por deus tudo é deus”. Dessa forma, foram capitulando diante de ídolos, crenças e práticas absolutamente contrárias ao Deus que aparecera aos patriarcas.

De repente, anos depois, lá estava ele: Moisés, o fujão, o assassino exilado, o homem que pretendera salvar seus irmãos usando o muque de seus próprios braços com uma mensagem do alto. Segundo afirmava, o Deus de seus pais aparecera a ele no deserto dizendo, dentre muitas outras coisas, que era para se prepararem para o dia da libertação total. A princípio creram, depois recuaram quando Faraó resolveu não facilitar em nada. Finalmente, depois de muitas idas e vindas, foram convencidos da veracidade das palavras do persistente Moisés e então, partiram rumo ao totalmente desconhecido.

Assim começaram os desafios. A multidão de israelitas que havia deixado o Egito ainda não estava totalmente liberta. Com eles e seus filhos partiram também as crenças, os deuses e as abominações espirituais. Por que não podiam servir a outros deuses se todas as nações o faziam? Por que um só Deus?

Anos de deserto e de provações não foram capazes de erradicar completamente o mal. Quase meio século depois de terem deixado o Egito, Josué já velho e à beira da morte, precisou reuni-los e desafiá-los, talvez pela centésima vez, a um posicionamento: “se não lhes agrada servir a Deus, então escolham ao menos se vão ficar com os deuses do Egito ou se com os deuses de Canaã. Quanto a mim, porém, e à minha casa, serviremos ao Senhor”, Josué 24:15.

Não me parece muito diferente hoje. Embora não tenhamos que decidir entre ficar com Deus ou com algum dos deuses do Egito e Canaã, temos, contudo, que decidir diariamente entre ficar com a santidade do Filho de Deus ou com os pecados antigos e outros não tão antigos assim.

Ocorreu-me durante uma de minhas devocionais dessa semana que a exemplo da história do povo de Israel também temos que fazer nossas escolhas diárias. Se por um lado deixamos os antigos pecados (deuses do Egito) e decidimos viver na companhia de Deus, por outro lado sofremos todos os dias ataques, recebemos ofertas e somos tentados a abraçar novos – e quase sempre sutis – pecados (deuses de Canaã). E essa não parece ser uma escolha fácil. Somos taxativos na recusa da vida pregressa, mas sempre acabamos por achar que há lugar para pequenas concessões. Classificamos como terrível aquilo que deixamos no Egito enquanto acreditamos na inocência do que Canaã oferece.

É ponto passivo que a conversão não exclui a possibilidade de novos erros. Assim abraçar ou não novos pecados é uma questão de escolha, de decisão voluntária. Já estamos escolados e bastante crescidinhos para saber que nem uma nem outra das práticas que se opõem a Deus é lícita, mesmo assim relutamos em ser radicais. Flertamos com o perigo e até tentamos esconder dentro de casa ainda que seja uma capa ou uns poucos gramas de prata e ouro, Josué 7:1,21.

Não pode! Ou somos dele (Deus de Israel) ou somos deles (deuses do Egito e Canaã)! Por mais que Israel tenha tentado, Deus nunca aceitou a indecisão sempre reincidente entre eles. Foi por essa razão que Elias, séculos mais tarde, vociferou no Monte Carmelo: “até quando vocês vão oscilar para um lado e para o outro? Se o Senhor é Deus, sigam-no; mas, se Baal é Deus, sigam-no”, 1 Reis 18:21. Paulo também deixou sua exortação: “Vocês não podem beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; não podem participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Porventura provocaremos o ciúme do Senhor? Somos mais fortes do que ele?”, 1 Coríntios 10:21-22.

Não sei quanto a você; eu já fiz a minha escolha. Infelizmente não posso decidir por ninguém, mas fica aqui o meu apelo: decida-se, e rápido, por aquele que é o único caminho, a única verdade e a única fonte inesgotável de vida. Ele, e somente Ele é “o verdadeiro Deus e a vida eterna”, 1 João 5:20. O pecado qualquer que seja ele, não deve apenas ser decifrado como também detestado. É na possibilidade de fazermos escolhas que repousa nossa liberdade de querermos Deus, o único Deus. Decida-se agora mesmo!