Sobre o prazer e a alegria.

on terça-feira, 28 de setembro de 2010

O prazer só existe no momento. A alegria é aquilo que existe só pela lembrança. O prazer é único, não se repete. Aquele que foi, já foi. Outro será outro. Mas a alegria se repete sempre. Basta lembrar.


(Rubem Alves em Um mundo num grão de areia - pág. 70. Ed. Verus)

Sobre o sofrimento.

on segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Se uma pessoa querida morre e o coração não sangra, se um golpe duro da vida atinge a quem se ama e os olhos não choram, se uma desgraça cai sobre o povo e a alma não fica triste, se o fogo consome as florestas e o corpo não queima também, é porque algo está errado com a gente.
Quem é feliz sempre, e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. Toda experiência de amor traz, encolhida no se ventre, à espera, a possibilidade de sofrer.
Assim, a receita para não sofrer é muito simples: basta matar o amor.


(Rubem Alves em Um mundo num grão de areia, pág. 23-24. Ed. Verus)

Saul: seus medos, coragem e covardia.

on terça-feira, 14 de setembro de 2010

       

Weslei Odair Orlandi

Tanto a amizade, quanto a cordialidade e a  admiração de Saul para com o jovem Davi foram de curta duração. Não porque Davi tenha cometido algum delito, traição ou deslealdade, mas porque o rei de Israel era interiormente doente.
         A julgar pela descrição física Saul, o primeiro israelita a usar uma coroa real, tinha todos os predicados para ser um monarca de sucesso e respeitado por todos. Jovem de boa aparência, sem igual entre os israelitas – os mais altos batiam nos seus ombros – Saul logo foi confirmado como líder da nação e o causador de momentos de grande alegria entre o povo. Tratava-se então, de um novo momento de estabilidade política e econômica para Israel. Logo, porém, surgiram as primeiras crises. Primeiro veio sua precipitação ao oferecer ele mesmo holocaustos em Gilgal, desobedecendo a ordem clara de Samuel para aguardá-lo. Depois veio seu juramento precipitado em Gibeá o que quase resultou na morte de seu filho Jônatas. Mais tarde outro ato de desobediência a Samuel que ordenara a morte imparcial de todos os Amalequitas tornou ainda mais complicada a situação do rei. Isso, porém, não era nada se comparado ao que ainda estava por vir. Saul se revelaria ainda mais problemático, perigoso e surpreendentemente enfermo.
         Certo dia, quando em guerra contra os filisteus e acuados por Golias, o gigante, o exército de Saul achava-se imobilizado e apavorado, Davi o “ninguém que ninguém notara, exceto Deus”, saiu das sombras do anonimato e com uma pedra desbancou a fama do herói filisteu matando-o e decepando-lhe a cabeça. Iniciava-se nesse dia a breve afeição de Saul pelo jovem pastor de ovelhas. Convocado a permanecer na companhia do rei, Davi logo se tornou amigo de seu filho com quem fez um acordo de amizade. Disciplinado e dado à obediência fazia com grande habilidade tudo quanto Saul ordenava o que lhe rendeu em pouco tempo um posto elevado no exército. Um dia, porém, quando voltavam para casa, Saul ouviu o cântico das mulheres que saiam para saudá-los e o refrão que atribuíam a ele milhares e a Davi dezenas de milhares. Dar-se-ia nesse instante o rompimento da frágil simpatia do rei por seu súdito. A partir desse dia seu coração nunca mais se livraria da inveja, do ódio e do medo de Davi.
         Saul passou por algumas metamorfoses infelizes em relação a Davi: de amigo a inimigo; de admirador a perseguidor; de rei a caçador; de sogro a desafeto político. Isso sem contar outros aspectos menos visíveis de seu comportamento volúvel. Saul nunca mais conseguiu voltar à normalidade. Como que destinado a descer sem misericórdia a escada da rejeição ele se entregou de corpo e alma a alimentar seu desejo sórdido de aniquilar quaisquer traços de seu inimigo imaginário.
         Não era preciso agir assim; Davi nunca ambicionou depô-lo de sua posição tampouco desejou a sua morte. Seus temores eram de natureza infundada, sua sede por destruir a vida de seu genro e melhor soldado era apenas o resultado de um coração doente, amador, pouco experimentado na arte da boa convivência e principalmente destituído de intimidade com Deus. A soma desses desatinos de Saul foi a mola propulsora para o temor descabido que inflamou por anos o seu coração. Na mesma proporção em que o temia enchia-se de coragem para extravasar sua sandice. Um medo corajoso que dava lugar a uma coragem covarde. Foi assim que, ladeira abaixo, Saul gravou na memória de todos sua biografia infeliz. Uma vida ordinária que não suportou o peso da convivência ao lado de pessoas extraordinárias.
         Nem é preciso ir mais longe para tentar dizer o que se faz óbvio a essa altura: é melhor viver despretensiosamente uma vida de amizade e aceitação confirmando-se como um ninguém na multidão do que finalizar os poucos dias que nos são dados conhecidos por todos, mas sem ser amado por ninguém. Foi esse o resultado final da vida insossa do primeiro monarca de Israel. Atormentado, vencido pelo medo e dono de uma coragem covarde, Saul teve que, ele mesmo, apagar as luzes do seu mundo conturbado. A morte suicida de Saul fez descer a cortina sobre o que é irremediavelmente mortal – o homem – porém, amargurado, vencido e infeliz foi, logo depois, apresentado ao mundo dos imortais onde vive desde então a plenitude e a consumação dos seus erros. Pobre Saul!

Meu amor pelo livro.

on sexta-feira, 3 de setembro de 2010

                                 
                                 Ricardo Gondim

Meu pai lia obsessivamente. Todas as vezes que o surpreendia, abrindo a porta do seu quarto sem bater, eu o flagrava com um livro na mão. Ele assinava pelo menos duas revistas de notícias semanais e vários pasquins. Ele comprava folhetos subversivos não sei onde e os trazia perigosamente para casa. Papai era professor de história, mas seu fascínio maior era a II Guerra Mundial. Em sua biblioteca, sobravam tomos, fotografias e artigos sobre o conflito que marcou sua infância.
Só há um tipo de consumismo que não me oponho: comprar livros. Aliás, todas as vezes que entro numa livraria, gasto mais do que posso – divido em prestações o que não consigo pagar à vista. Não cogito fazer qualquer viagem de avião sem ler o tempo todo. Só há um momento que odeio o sono, quando estou avidamente envolvido com um romance.
Antigamente eu resumia minha leitura a textos conceituais, de não-ficção. Por causa da minha necessidade de aprender a escrever – faltei às aulas de português do Liceu – aprendi a devorar literatura brasileira e portuguesa. Hoje abocanho com igual apetite, biografias, romances, poesias, ficção científica e contos. Os livros grossos já não me metem medo. Sou capaz de perseverar em mil páginas.
Tenho tanta avidez de compensar os anos perdidos em que não abri uma página, que faço vigília até altas horas da madrugada para terminar um livro – só não passo a noite em claro, porque, casado, obedeço ordens superiores, que zelam pela minha saúde.
Acredito que o livro faz parte da conspiração divina. Quando Deus quis falar aos homens, não fez pirotecnia celestial, apenas inspirou homens que escrevessem. Por isso, todas as vezes que Moisés subia a montanha, Jeová mandava que trouxesse um bloco de anotações. Tem razão a frase latina: Scripta manent, verba volant – “O escrito fica, as palavras voam”.
Digo sem medo: todo livro é sagrado. O livro é relicário santo onde se registram as memórias, as fantasias, as angústias, os medos, as bravuras, a grandeza e os pecados da humanidade.
Não existe livro impuro, apenas o mal escrito. Literatura é a mais completa de todas as artes. Se um personagem numa pintura, escultura ou cinema aparecer contemplando um relvado, ninguém conhecerá com exatidão o que ele pensa. O bom escritor, contudo, discerne não só os seus pensamentos como o que move suas entranhas.
Louvado seja o livro, pois sem ele não conheceríamos o amor trágico de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta e de Bentinho e Capitu; jamais celebraríamos a coragem enlouquecida de Dom Quixote; não saberíamos sobre a força do ciúme em Otelo; e nunca partilharíamos da coragem do capitão Acabe.
Jorge Luis Borges afirmou que, em sua vida, procurou mais reler do que ler: Ele dizia: “Creio que reler é mais importante que ler, embora para reler seja preciso haver lido”.
Borges, já sem enxergar, fez uma linda declaração de amor ao livro:
“Continuo fingindo não ser cego; continuo comprando livros, continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 (ele escreveu isso em 1978) da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença dessa obra em minha casa; eu a senti como uma espécie de felicidade. Aí estavam os vinte e tantos volumes, com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver; e, no entanto, o livro estava aí. Eu sentia como que uma gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que temos, nós, os homens”.
A humanidade não vive só de pão, mas de palavras. No livro não se acha sabedoria pura e simples, nele está a fonte da felicidade. Deus é escritor e os que querem se achegar a Ele, devem aprender a gostar de ler.

Soli Deo Gloria.