Ganhos e perdas.

on sábado, 25 de abril de 2009


Monteiro Lobato



Caso estejas só aproveite.

Faça um levantamento das suas entradas e saídas.

O que foi ganho e o que foi perda.



Na matemática da vida há enganos.

Perdas podem ser ganhos e ganhos podem ser perdas.



Não se torture com as aparências.

Distancie-se dos sentimentos e avalie sem envolvimento.

Seus ganhos e suas perdas.



Quantas vezes, tempos idos, lágrimas derramastes por tão triste

acontecido.

E hoje em suas lembranças ris de si mesmo e se alegra com todo

ocorrido.



É a roda da vida que gira. E em seu giro tudo modifica.

Transformado nosso modo de vida.



Sendo assim, não se assuste perante as coisas ocorridas.

Hoje é perda amanhã quem sabe ganho.

E assim gira a roda da vida.




Não existem pessoas comuns.

on quinta-feira, 23 de abril de 2009


É muito sério viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar-se de que a pessoa mais enfadonha e mais desinteressante com quem se pode conversar talvez um dia seja uma criatura que, se alguém soubesse disso agora, seria tentado a adorar ou, de outro modo, talvez seja o horror ou a corrupção tal como se conhecem agora somente em pesadelo, se tanto. (...) É à luz dessas esmagadoras possibilidades, é com o assombro e a cautela dignas delas, que devemos pautar todos os nossos negócios uns com os outros, todas as amizades, todos os amores, todos os divertimentos e todas as políticas. Não existem pessoas comuns. Vocês jamais conversaram com alguém que fosse um simples mortal. As nações, as culturas, as artes, as civilizações - todas essas coisas são mortais, e a vida deles comparada com a nossa é como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos e nos casamos; são imortais aqueles a quem insultamos e a quem exploramos - horrores imortais ou esplenderos eternos. Isso não quer dizer que devemos ser perpetuamente solenes. Precisamos brincar. Nosso divertimento, porém, deve ser do tipo daquele que existe entre pessoas que levam, desde o início, umas às outras a sério (e, na verdade, esse é o tipo mais feliz) - sem desrespeito, sem superioridade, sem presunção.


(C.S. Lewis em "O peso de glória", pág. 48-49 - Ed. Vida)

Sermão C.S. Lewis - "O peso de glória".


No dia 08 de junho de 1941 C.S. Lewis pregou esse sermão, a convite de Canon T.R. Milford, no Solemn Evensong, na Igreja St. Mary the Virgin, da Universidade de Oxford.


Ler esse sermão foi um prazer imenso!!


Cito aqui trechos desse sermão:


" As justas recompensas não se relacionam por um simples vínculo de pagamento com a atividade a que premiam, antes são a própria atividade em consumação" - pág. 31.

"A satisfação chega de mansinho, junto com o trabalho tedioso e inevitável, e ninguém pode precisar o dia nem a hora em que cessa o trabalho e começa o prazer" - pág. 31.

"Se o Cristianismo não pudesse me dizer mais nada da terra distante além do que meu próprio temperamento já não me permitisse conjeturar, então o Cristianismo não seria mais nobre do que eu. Se ele tem mais a me oferecer, espero que seja algo nada menos imediatamente atrativo que "as coisas que eu posso inventar" - pág. 37.

"Afirma um antigo escritor, que aquele que tem Deus e todas as coisas não tem mais do que aquele que tem apenas Deus" - pág. 38.

"A natureza é mortal; nós continuaremos vivendo depois dela. Quando todos os sóis e nebulosas tiverem acabado, cada um de nós ainda estará vivo. A natureza é apenas uma imagem, o símbolo, mas é o símbolo que as Escrituras nos incentivam a usar. Somos convidados a passar pela Natureza, para além dela, para entrar no esplendor que ela refere ainda de forma hesitante" - pág. 47.


(C.S. Lewis em "O peso de glória" - Ed. Vida)

Responda se puder (e quiser).



QUAIS LIVROS VOCÊ JÁ LEU NESSES PRIMEIROS MESES DE 2009?


Responda na opção "comentários".



Se não leu nenhum, faça um favor ao seu potencial de expansão intelectual: comece a ler agora mesmo.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
"Ler é bom demais. Ler é ótimo. Ler é mais do que necessário. Enriquecedor. Imprescindível."
Gabriel Perissé

Opinião de Gustavo Corção sobre G.K. Chesterton.

on quarta-feira, 22 de abril de 2009


Não me canso de agradecer a Deus o fato de ter encontrado Chesterton nos dias de desolação em que, sempre crendo em Deus-Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, das coisas visíveis e invisíveis, não conseguia, entretanto, encontrar a alameda e a porta de Sua Casa. A par de todos os defeitos e imperfeições, tenho a alma muito agradecida, porque desde cedo até tarde, na tarde da vida, deu-me Deus a ventura de sentir a dependência em que vivi, de minha mãe, de meus irmãos, de meus alunos, de meus professores, de todos os que neste longo trajeto que já se aproxima do marco assinalado pelo salmista para os vigorosos, sim, sempre tive a ventura de sentir muito melhor o bem que me fizeram e que especialmente reservo aos que me ajudaram na morte para o mundo. E entre esses reservo um especial lugar no altar que hoje adornei em meu velho coração para lembrar G. K. Chesterton.

(Trecho do artigo "G.K. Chesterton" de Gustavo Corção para "O Globo" - 06/06/74)

Li e recomendo.


Leituras que fiz em 2009 (até agora: 22 de abril):


1. A cabana - William P. Young (Sextante)

2. A águia e a galinha - Leonardo Boff (Vozes)

3. A batalha de todo homem - Stephen Arterburn & Fred Stoeker (Mundo cristão)

4. Religião e repressão - Rubem Alves (Loyola)

5. O que estão fazendo com a Igreja - Augustus Nicodemus (Mundo cristão)

6. Tempus Fugit - Rubem Alves (Paulus)

7. O enigma da graça - Caio Fábio (Fonte editorial)


Estou lendo agora: Peso de glória - C.S. Lewis (Vida)

Os velhos também amam.


Amor de mocidade é bonito, mas não é de se espantar. Jovem tem mesmo é de se apaixonar. Romeu e Julieta é aquilo que todo mundo considera normal. Mas o amor na velhice é um espanto, pois nos revela que o coração não envelhece jamais. Pode até morrer, mas morre jovem. "O amor retribuído sempre rejuvenesce", dizia Eliot no vigor da sua paixão, aos 70 anos de idade...

(...)

Sei muito bem que é estranho. A Simone de Bouvoir, no seu livro sobre a velhice, diz que há uma coisa que não se perdoa nos velhos: que eles possam amar com o mesmo amor dos moços. Aos velhos está reservado outro tipo de amor, amor pelos netos, sorrindo sempre paciente, olhar resignado, espera de morte, passeios lentos pelos parques, horas jogando paciência, cochilos em meio às conversas. Mas quando o velho ressuscita, e no seu corpo surgem de novo as potências adormecidas do amor, ah! os filhos se horrorizam. "- ficou caduco..."

(...)

O amor tem este poder mágico de fazer o tempo correr ao contrário. O que envelhece não é o tempo. É a rotina, o enfado, a incapacidade de se comover ante o sorriso de uma mulher ou de um homem. Mas será incapacidade mesmo? Ou não será uma outra coisa: que a sociedade inteira ensina aos seus velhos que o tempo do amor já passou, que o preço de serem amados por seus filhos e netos é a renúncia aos seus sonhos de amor.


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - E os velhos se apaixonarão de novo - pág. 105,106,108 - Ed. Paulus)

Quando chega a hora da morte.


Quando chega a hora da morte, chega a hora de se contar estórias. É assim que a imagem amada continua viva dentro de nós. E, quer saibamos disso ou não, o fato é que nós somos as pessoas que moram dentro de nós. Somos as estórias que contamos. De minha mãe posso dizer o que disse Vallejo: "O seu cadáver estava cheio de mundos". Muitos deles e nunca ditos, guardados como um segredo. A hora da saudade é quando nos impomos silêncio e aí, talvez possamos ouvir aquilo que nunca ouvimos, enquanto os mortos estavam vivos. A morte não deixa de ser a hora da verdade. E, com isso, nos tornamos um pouco mais verdadeiros e pensamos nos mundos que moram dentro em nós, e que só se tornarão visíveis depois que partirmos. Então os vivos ouvirão melhor o nosso silêncio.


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - Depois do enterro... - pág. 92-93 - Ed. Paulus)

O melhor de Rubem Alves em "Tempus Fugit".

on sábado, 18 de abril de 2009


"A vida, por vezes, é assim. Dado o golpe letal, ela não se recupera. Pensei nesta absurda assimetria entre a vida e a morte. A vida, para ser, leva tempo, demanda e paciência, exige cuidados, há que se esperar. Mas a morte vem súbita e definitiva. Uma árvore leva anos a crescer. O machado a abate em poucos minutos". (pág. 51-52)


"Pôr de sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque sua beleza triste mora em nosso próprio corpo. Somos seres crepusculares. É por isso que está é a hora do terror noturno, quando as pessoas lembrando-se do seu parentesco com as aves, voltam ansiosas para casa, e acendem as luzes que não se apagam". (pág. 55-56)


"O namoro tem vida breve e intensa. E é por isso que é tão belo e a sua memória - saudade - mora e dói em nossos corpos". (pág. 64)


"Era na dor da distância, onde mora a saudade". (pág. 65)

Sofrimento e brutalidade na Bíblia.

on quinta-feira, 16 de abril de 2009


Que há sofrimento e brutalidade na Bíblia, ninguém há de negar; é um livro sobre a humanidade, e o sofrimento é um fato da existência humana. O Deus do Antigo Testamento não se mantinha distante de Seu povo eleito; participava de suas lutas e tratava os inimigos de Israel como Seus inimigos. Quando Israel transgredia Suas leis, Deus reagia com uma ira terrível. Nosso Deus não é uma divindade distante - um Buda que já transcendeu a tudo, ou um Zeus que faz troça das desgraças humanas. De todas as religiões do mundo, o cristianismo é a única a representar um Deus que sofre, um Deus que assumiu em sua própria pessoa a dor humana, e que em Sua agonia gerou a salvação da humanidade.


(Clarence Wilmot, personagem de John Updike em "Na Beleza dos Lírios", Cia das Letras, p.60)

Se não houvesse montanhas.


Cecília Meireles



Se não houvesse montanhas!

Se não houvesse paredes!

Se o sonho tecesse malhas

e os braços colhessem redes!



Se a noite e o dia passassem

como nuvens, sem cadeias,

e os instantes da memória

fossem vento nas areias!



Se não houvesse saudade,

solidão nem despedida...

Se a vida inteira não fosse, além

de breve, perdida!

Eu não tinha cavalo de asas,

que morreu sem ter pascigo

E em labirintos se movem

Os fantasmas que persigo.

Retrato.


Cecília Meireles



Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.



Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida a minha face?

No meio do caminho.


Carlos Drummond de Andrade


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

Amor é fogo que arde sem se ver.



Luis de Camões





Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Em quem está a imagem de Deus.


A imagem de Deus não está no masculino, mas na raça humana, da qual a mulher também faz parte. Assim, a afirmação mais básica sobre o ser humano, de acordo com Gênesis 1, de que ele existe à imagem de Deus, não encontra seu sentido completo apenas no homem, mas no homem e na mulher.


(Von Rad - citado por Ralph L. Smith em "Teologia do Antigo Testamento", pág. 233 - Ed. Vida Nova.)

As coisas que moram dentro de nós.


Acho, inclusive, que nós somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno. Há a estória da linda princezinha que foi enfeitiçada e, sempre que abria a boca, dela só saíam cobras, sapos e lagartos. Outras, quando falam, delas sai um arco-íris.


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - a volta do arado - pág. 37 - Ed. Paulus)

Homem ocupado.



Finalmente todos concordam que o homem ocupado não pode fazer nada bem, não pode se dedicar à eloquência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu espírito ocupado em coisas diversas não se aprofunda em nada, pelo contrário, tudo rejeita pensando que tudo lhe é imposto.





(Sêneca em "A brevidade da vida")

Voa tempo, voa...


Weslei Odair Orlandi


O tempo voa

Se vai

Se esvai

Só vai

Não volta.

Dois ou três minutos.


Weslei Odair Orlandi


Somos maus contadores. Aprendemos a pensar apenas na perspectiva do macro e a não dar valor ao micro. É assim que explicamos a nossa efêmera existência: a partir de décadas e anos. Porque a duração da vida é de setenta anos, e alguns, pela sua robustez, chegam aos oitenta, passamos a não perceber a linha tênue que separa a vida da morte.
Foi essa a razão porque Moisés orou a Deus pedindo-lhe que o ensinasse a contar os seus dias. Para quem iria viver cento e vinte anos sem perder o vigor e o golpe de vista, o perigo de não se perceber a finitude da vida era ainda mais provável. Ele preferiu não correr o risco. Entendeu o que é a vida: um sono. Apenas isso. O homem que parece ser tão forte, independente e senhor de si, na verdade, nada é senão a soma de um punhado de terra tirado do chão úmido do Éden mais o hálito divino soprado para dentro de si. Não são poucas as metáforas – humilhantes, inclusive – que atestam sua fragilidade. É assim que o homem foi explicado: como “a erva que cresce de madrugada; de madrugada, cresce e floresce; à tarde, corta-se e seca”; “um conto ligeiro”; “pó da terra”; “carne”; “um vento que passa e não volta”; “vaidade”; “nada”...
Por que pensar nisso justo agora que tudo está dando tão certo? Para ajudá-lo a se localizar em definitivo no relógio da vida. Não julgo prudente deixar de lado a pergunta fatal: Que horas são?
Pense comigo como as coisas passam rapidamente. Há alguns poucos anos atrás e sequer existíamos, agora já nem somos mais tão jovens assim.
Um dos grandes perigos que corremos é o de não darmos conta de que a vida está se esvaindo a cada segundo. Creia-me, estamos morrendo agora; agora mesmo. A língua inglesa capta ainda com maior precisão o assanhamento da morte: just now! É como se estivéssemos num barco que a cada movimento das ondas fica mais e mais longe do cais. Uma viagem sem volta. Um contínuo e silencioso apagar das luzes. Um adeus sem pressa e sem alardes...
É por isso que quanto mais eu penso sobre a “hora” da nossa vida mais intolerante fico com aqueles que não vivem e também com aqueles que apenas vivem. A vida é rara e só passamos por aqui uma única vez. Aos homens está ordenado morrerem.
Fico imaginando quantas pessoas não estão absortas em seus desvarios sem se dar conta da efemeridade sem nome, sem rosto e sem aviso que as cerca e as conduz implacavelmente para o fim de todas as coisas. Não é sábio não aprender a contar os dias, a bem da verdade, a contar os minutos, os segundos, os décimos, os milésimos... Afinal, é deles que se alimentam os anos, as décadas e as eras.
Não pensar na brevidade dos dias que nos são dados é arrogância da pior espécie. Como dizia Rachel de Queirós: “somos imortais, mas não imorríveis”. Pediram a um sábio grego para que elaborasse uma verdade incontestável. Dias depois, após longas horas pensando, o sábio finalmente respondeu: “Tudo passa”.
Bingo! É isso. A vida é um milagre que não se repete. Por isso é inadmissível que não saibamos percebê-la em suas linhas suaves, sutis e traiçoeiras. Existem por detrás dos anos que celebramos uma força ainda maior que raramente conseguimos perceber. São os minutos que nos mantêm afastados da morte.
A respiração é uma função fisiológica do organismo diferente das demais especialmente pelo tempo em que pode deixar de ser exercida. Dois ou três minutos sem respirar, e o organismo começa a dar sinais de graves alterações. Se esse tempo for um pouquinho maior, será incompatível com a vida. Não respirando em dois ou três minutos, poderemos chegar ao coma e daí para a morte, o caminho é ainda mais curto.
Não são os anos que se interpõem entre o dia do nosso nascimento e o dia da nossa morte; são os minutos. Basta que esses minutos sejam antecedidos pelos numerais dois ou três; basta que eles sejam uma única vez suprimidos e, a erva verde seca-se e morre. E o que era já não é mais. E o que viera já se foi.
Principiei dizendo que somos maus contadores. E somos. Concluímos os ciclos da nossa existência a cada trezentos e sessenta e cinco dias. Pensamos no que vivemos e no que viveremos a cada doze meses. Tolice. Precisamos aprender a contar os nossos dias, as nossas horas, os nossos segundos. Não pensem que isso é insegurança ou desconfiança. Confiar em Deus ou a Deus os nossos dias não significa desaperceber-se da velocidade com que a vida flui. Ao invés de celebrarmos com festa, bolo, refrigerantes, brigadeiros, salgados, balões e línguas de sogra cada ano que subimos ao pódio da vida, deveríamos mesmo é ampliar nossa capacidade de exercer o ministério da gratidão a quem nos mantém tão perto, mas também tão longe da morte a cada dia, manhã, hora, minuto e segundo.
Dois ou três minutos. Talvez quatro ou no máximo cinco. Isso é tudo o que temos contra a morte. Razoável mesmo fui Rubem Alves ao escrever: “o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria. Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será”.
O tempo voa. O tempo se vai, se esvai. Só vai, não volta.

O porquê dos nomes.

on terça-feira, 14 de abril de 2009


Ah! Vocês não sabem do que se trata... As palavras estão no vazio... Que flor é essa? Se lhes tivesse dito um nome, então teriam, quem sabe, um perfume a evocar. Ou poderiam dizer: "Tem uma florida bem na porta da minha casa..." Mas eu não lhes disse o nome. E com isso estou lhes roubando a felicidade. Nietzsche dizia que os homens inventaram nomes para que pudessem ter prazer nas coisas... Esquisito, não? Não, se pensarmos um pouquinho. Porque o nome é invocação mágica que tem o poder de fazer presente, aí onde você está, a coisa que está ausente, na qual mora a felicidade. A palavra é como uma taça onde está um pouco da bondade da coisa. (...) O nome revela a face da nossa felicidade. E foi por isso que o Criador, depois de terminar de plantar o jardim, estando tudo pronto, determinou que o homem desse nome às coisas. Para que ele descobrisse a felicidade que mora nelas.


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - Unha-de-vaca - pág. 26-27 - Ed. Paulus)

Não basta viver.


Não basta viver. É preciso que haja beleza. Uma gota de orvalho não me faz viver ou morrer. Mas sua magia me enche de gratidão, e penso que valeu a pena o universo ter sido criado por causa daquele milagre fugaz. Olho os céus estrelados. Lá está Sirius, a estrela mais brilhante. Sua luz não me faz viver ou morrer. Afinal, ela está longe... Mas ela desperta, no meu corpo, pensamentos sobre eternidades que já passaram, e sobre o tempo em que eu terei passado, e ela continuará a brilhar.

Como é belo este mundo!


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - Veja como estão agradecidas - pág. 18-19 - Ed. Paulus)

Ipês floridos


Gosto dos ipês de forma especial. Questão de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrário. As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está para chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio.

(...)

Penso que os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno...


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - Os ipês estão floridos - pág. 13,15 - Ed. Paulus)

Tempus Fugit


O sol e as estrelas entoam a melodia: "Tempus fugit".

E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o terror, e abafamos o ruído tranquilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões...

Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice:

"Estou atrasado, estou atrasado..."

Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria:

Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será...


(Rubem Alves em "Tempus Fugit" - O relógio - pág. 11 - Ed. Paulus)

O evangelho pirateado.

on quarta-feira, 8 de abril de 2009


Weslei Odair Orlandi

Não são apenas os cantores, escritores e empresários que tiveram seus produtos pirateados. O evangelho de Jesus Cristo também foi forjado. Como sempre acontece no mercado negro, não pediram ao Verbo Encarnado permissão para adulterar sua mensagem. Simplesmente o fizeram. Qual é o teor de veracidade contida na mensagem pregada hoje? Preciso ir direto ao ponto: estamos experimentando uma crise sem precedentes.
Nessas horas eu volto meus olhos para a Bíblia e fico assustado com o que leio e com as previsões que ela faz. Os rumores de dias difíceis – 2 Timóteo 3:1 – como anunciado por Paulo a Timóteo estão cada vez mais altissonantes e por incrível que pareça ser é no ambiente da fé cristã que seus efeitos são mais claramente sentidos. Embora minha tese possa não estar em consonância com o pensamento de alguns eu prefiro caminhar com meus pés no chão e por isso mesmo afirmar que se a fé evangélica continuar do jeito que está, dentro de pouco tempo estaremos vivendo um cristianismo totalmente diluído por simulacros teológicos.
Os tais dias difíceis sobre os quais o apóstolo escreveu muitas vezes têm sido erroneamente interpretados. Uma leitura rápida desse texto parece nos arremeter ao comportamento dos ímpios. Ledo engano. Na verdade está falando de pessoas dentro da igreja. Os tempos difíceis não são fora da comunidade cristã, mas dentro dela.
Eu acredito (você não?) que este período de tempo predito pelo grande apóstolo da graça já está fazendo história. Basta olhar para as anomalias que a igreja enfrenta hoje.
O crescimento das massas oficialmente conhecidas como “evangélicas” e os grandes e superlotados templos que surgem a cada ano causam nos desavisados a falsa impressão de que estamos no meio de um grande avivamento. Há inclusive muitos pregadores que afirmam isto. As pessoas olham e dizem que “algo está acontecendo, pois as igrejas estão lotadas”. Essa ebulição, porém, não é privilégio das igrejas evangélicas. Há atualmente em todo o mundo habitável um fenômeno semelhante. Os mulçumanos também estão crescendo em quase todos os continentes. No Brasil, não há festa católica que não reúna milhares de pessoas. O exoterismo, o espiritismo e as seitas assumidamente satânicas também estão fervilhando. A verdade é uma só: crescimento numérico não é sinônimo de avivamento. Todo avivamento de qualidade produz quantidade, mas nem todo ajuntamento é fruto desse mover sobrenatural do Espírito. O que estamos experimentando na verdade é um crescente descrédito encabeçado por falsos pastores e profetas. A Palavra está sendo mercadejada. O misticismo e a superstição estão cada vez mais populares. A igreja está sendo secularizada e o evangelho tem se tornado em muitos casos uma lastimável “graça barata”, um termo que herdamos de Dietrich Bonhoeffer. Estamos atolados até o pescoço em “teologias” e promessas irresponsáveis.
Não devemos nos iludir com igrejas que mostram resultados ou que atraem multidões, tampouco nos deixar levar por testemunhos de pessoas que prosperam com campanhas e correntes. Sucesso financeiro não é sinal de salvação. Jó constatou em sua busca frenética por respostas que em muitos casos “a tenda dos assoladores têm descanso, e os que provocam a Deus estão seguros; nas suas mãos Deus lhes põe tudo”, Jó 12:6. Por essa razão eu repito que esses ímpetos de crescimento nem sempre apontam para uma vida cristã autêntica. Jesus advertiu: “Aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas, para se possível, enganar até os eleitos”, Mt 24:24. Noutra ocasião ele afirmou: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus”, Mt 7:21. É pelo fruto – e não pelas folhas – que se conhece a qualidade de uma árvore boa, Mt 7:15-20.
Precisamos considerar esses alertas de Cristo sem nos deixarmos iludir por aqueles que pregam “paz, paz” quando não há paz. Há em muitos ambientes religiosos um conluio, uma espécie de pacto, entre líderes e auditórios. Ainda que não verbalmente, em suas ações existe uma mensagem clara: “você não mexe conosco, e nós não mexemos com você”. “Você traz seus dízimos e ofertas e nós pregamos mensagens que coçam seus ouvidos”.
É dever nosso protestar contra esse abandono descarado da verdade. Mais do que isto, precisamos voltar ao início de tudo – à velha e saudável ortodoxia bíblica. É tempo de repensarmos o tipo de evangelho que estamos ouvindo. Que tipo de fé estamos produzindo?
Antes de prosseguir, preciso fazer uma pausa para dizer que sim, eu creio e oro (Deus o sabe) por um avivamento autêntico. Eu acredito que Deus pode e quer abençoar seu povo, contudo, sou contra alguns pseudo-evangelhos que estão sendo anunciados hoje, especialmente na mídia televisiva.
Ao meu ver, um evangelho que não ameaça o pecado não é digno de ser pregado, muito menos de ser ouvido. João Batista foi decapitado porque sua pregação denunciava os erros da multidão, inclusive os de Herodes. O evangelho autêntico não fala apenas de prosperidade, vitórias incondicionais, quebra de maldição, batalha espiritual e restituição. Ele mexe com o conforto que muitos prezam. Estude Lucas 12:49-53 e veja como Jesus resumiu os efeitos do evangelho quando explicou sua missão na terra. Na escala Richter ele seria um terremoto de grau máximo.
Se somos cristãos precisamos ser coerentes com a fé que abraçamos. Se somos sal precisamos ter sabor de sal. O que passar disso de é procedência maligna.
Um evangelho que não provoca rupturas com o passado, que não rompe as relações de afeto e compromisso com o mundo, que não suspende os vínculos com o pecado, que não provoca uma violação de contrato com o pecado, não pode ser aceito na igreja que Jesus comprou com seu próprio sangue. Cristo não veio até nós para impor um novo código de doutrinas. Ele não veio a priori para amenizar os problemas da humanidade. Ele não veio para nos ensinar sobre como melhorar de vida. A missão do Salvador foi anunciar um evangelho de denúncia contra a podridão da alma e de redenção para quem estava condenado à perdição eterna. Jesus não veio pôr remendo novo em pano velho. Ele veio fazer tudo novo. Ele veio para escrever uma nova história.
O evangelho pregado nos grandes avivamentos historicamente comprovados é aquele que nos faz olhar para o céu não à espera de que ele se instale aqui, mas à espera de que o Filho venha para nos instalar ali. A grande mensagem da Bíblia não é a de que Deus vai amenizar os tempos trabalhosos, mas sim a de que Ele vai criar novos céus e nova terra. Brevemente o Grande Arquiteto vai enrolar, como se faz com um tecido velho, esse sistema corrompido e perverso para dar lugar a um novo mundo onde justiça e paz se abraçarão.
Essa sim, será uma era apoteótica. Esta é a mensagem que eu quero pregar. Esse é o legado autêntico que Jesus nos autorizou transmitir à posteridade.

Há vagas.


Weslei Odair Orlandi



Em tempos de recessão econômica o desemprego costuma tornar-se o mais medonho dos fantasmas a serem enfrentados. Frear esse espectro voraz dentro das grandes indústrias não é tarefa à altura de leigos e aventureiros. As doutrinas ideológicas do capitalismo parecem estar preparadas para quase tudo, menos para manter na mesa do trabalhador comum o seu pão diário em tempos de vacas magras. Hoje milhões de pessoas em todo o mundo já estão engrossando a fila dos despedidos; e, diga-se de passagem, a crise nem bem começou. No Brasil os pedidos de salário desemprego já se multiplicaram nas agências de seguridade social. O que vem a seguir fica difícil prever. Mas há um lugar onde as vagas não sumiram com a crise, os empregados não correm o risco de irem para o olho da rua... Aliás, para as ruas eles irão, mas não sob a égide do desemprego, claro.
Li em algum lugar que o Reino de Deus é a única agência de empregos onde há mais vagas do que candidatos. Verdade! E como há vagas! O que falta então? Por que tantas pessoas não estão ocupando essas funções? Ausência de mão de obra qualificada? Salários pouco compensadores? Divulgação precária? Muitas vagas, mas pouco campo de trabalho? Onde está o motivo para tantas vacâncias? Nas agências, ou quem sabe nos agenciadores que burocratizam os processos de seleção até conseguirem travá-lo em definitivo? Não. Creio que a resposta não esteja nisso. A crise para o estabelecimento de novos “trabalhadores” nas várias áreas de carência não é tão óbvia quanto pensamos ser. O entrave é mais sutil e ardiloso do que imaginamos.
Para se ter uma ideia de quantas vagas há pense um pouco nessa estatística: de um ano para cá até hoje nasceram aproximadamente 62 milhões de pessoas. E somente para evangelizarmos estas 62 milhões de vidas (não as outras 7 bilhões já existentes) teríamos que ganhar hoje 187 mil almas por dia. No mundo inteiro temos atualmente aproximadamente 56 mil missionários em atividade, o que significa que cada um deles teria de ganhar 8.920 pessoas a cada dia perfazendo um total de 254 milhões de pessoas para cada um deles. Claro que temos ainda pastores, evangelistas, líderes de grupos e outras pessoas mais envolvidas na evangelização. Mas considere os números. É alarmante o crescimento dos não evangelizados a cada ano. Existem hoje mais de 16 mil grupos étnicos e sociais não alcançados pelo evangelho. Só na janela 10/40 existem 1.738 povos não alcançados. Na Índia a população é cada vez maior. Com os índices populacionais sendo inflacionados a cada ano, sobe também o número de deuses. Entre os indianos há mais de 330 milhões de deuses em “atividade” – quase duas vezes a população brasileira!
Repito: HÁ VAGAS! Por que então elas não são preenchidas? Penso que a resposta deve ser encontrada nos cômodos escuros dos corações; aí está a chave para a nossa compreensão: há inversamente proporcional às vagas em aberto no Reino de Deus uma carência gigantesca de vagas nos corações. A crise de vocação para o ministério entre jovens, leigos e cristãos em geral é a raiz de todos os males. O fato de que os corações estão cheios demais com as preocupações e negócios dessa vida têm ocasionado uma geração de cristãos moucos, incapazes de se sentirem chamados. Estamos confundindo estar ocupados com estar embaraçados.
Precisamos reconsiderar questões rudimentares como o ide de Jesus. Dallas Willard explicou com precisão o problema quando chamou em seu best-seller “A grande comissão” de “A grande omissão”. O ide de Jesus não foi dado apenas aos apóstolos, tampouco foi apenas uma sugestão para fins de semana livre. A Igreja como um todo recebeu dele a ordem clara para evangelizar o mundo. Ricardo Gondim no livro Artesãos de uma nova história faz o seguinte comentário: “nunca substitua o ide de Jesus por contribua, ore (...) Ir significa ir. Se não pode ir à África, vá ao vizinho do outro lado da rua. Se não pode ir à França, vá à delegacia, aos hospitais...”.
O fato de que a grande comissão tornou-se hoje a grande omissão da igreja precisa ser fatidicamente repensada. Precisamos resignificar o chamado para os campos que estão brancos. Tenho pensado que a causa para tanto descaso está no fato de que muitos gostariam mesmo é de que Deus os chamasse para os celeiros já repletos de sementes ensacadas e não para os campos ainda áridos e à espera de que alguém os cultive.
A existência meramente física de pessoas nos templos abarrotados não faz sentido para a fome universal do divino, fome essa cada vez mais aguda entre os não alcançados dos continentes distantes e também dentre vizinhos, parentes e amigos. É inadmissível que a mentalidade cristã-evangélica funcione baseada apenas no sistema de reposição de vidas. Precisamos ser mais agressivos. Avançar é a palavra de ordem. Clamar por ceifeiros é a oração ordenada por Jesus. A atitude e disponibilidade pessoal de cada membro do corpo de Cristo buscando uma solução frente aos problemas do pecado no mundo é o antídoto certo para o refreamento dos índices alarmantes de vagas não preenchidas. Precisamos recuperar a capacidade de chorar com os que choram, de sofrer com os que sofrem, de tocar os intocáveis, de compreender os incompreensíveis, de alcançar os inalcançáveis, de atingir os inatingíveis. É dever nosso aproveitar ao máximo cada oportunidade que temos de sermos úteis no papel de trabalhadores da vinha. Não espere ser chamado quando o chamado já aconteceu. Não diga a Deus: “posso ir?”, mas “quero ir”.
O que Deus pensa a respeito da nossa participação nos processos de evangelização do mundo não é simplista nem superficial, apenas simples e compreensível, por isso mesmo absolutamente praticável por leigos, teólogos, pastores, profissionais liberais, velhos, meninos, letrados e iletrados. Afinal, que é que Ele requer de seus obreiros senão que eles sejam coerentes com a fé que professam? Senão que eles resplandeçam a luz que há neles diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem Aquele que está nos céus?
Há vagas, mas e candidatos, há?

Quem é você?

on sábado, 4 de abril de 2009


Weslei Odair Orlandi


Se você fosse convidado a escrever hoje sua própria biografia, com quais palavras você se descreveria? Com quais argumentos você justificaria sua vida, suas ações e os seus pensamentos?
Levar as pessoas a se sentirem importantes e valiosas nessa nossa sociedade tão dominada pela tecnologia não é tarefa fácil. O mundo das máquinas nos faz sentir cada vez mais insignificantes. É como explicou Lars Wilhelmsson – um escritor muito lúcido: “Essa nossa era tecnológica nos torna mais conscientes de que somos pequenos. À medida que o mundo vai se tornando cada vez mais sofisticado, sentimo-nos mais e mais insignificantes. E nossa suspeita de que não somos mais apreciados pelas nossas próprias qualidades confirma-se a cada dia que passa, pela maneira de viver do século XXI, que é tão impessoal”.
Refletindo sobre isso, alguém concluiu ainda que “para os médicos eu sou apenas um paciente. Para os advogados sou um cliente. Para os redatores de jornal, um assinante. Para os varejistas, um comprador. Para os professores, um aluno. Para os industriais, um negociante. Para os políticos, um eleitor. Para os banqueiros, um investidor ou cliente. Para os promotores de eventos esportivos, um torcedor. Para as companhias de aviação, um passageiro. Para os pastores, um membro de igreja. Para os militares, um número ou um soldado”.
Não admira que às vezes nos sintamos como subumanos. Estamos sendo tratados mais como coisas do que como seres humanos. “Não somos mais uma pessoa, mas um número; não mais um ser humano, mas simplesmente um dado estatístico.” Não creio, contudo, que possamos deixar de lado a percepção de quem somos nós aos nossos próprios olhos. De vez em quando olho para dentro de mim mesmo e pergunto de novo: quem sou eu? As respostas que construo para essa pergunta é que servirão de corrimão onde me apoiar nas estradas íngremes da vida.
João Batista, o precursor de Cristo, não teve problemas ao se deparar diante do espelho. Quando os sacerdotes e levitas, enviados dos judeus de Jerusalém, o abordaram com essa pergunta – “quem és tu?” – João Batista não titubeou sequer uma vez. O homem simples e rude que aparecera pregando às margens do Jordão já vira seu rosto refletido nas águas turvas do rio, e nelas se contemplara vezes suficientes para dar-lhes uma resposta segura e verdadeira. Confessou e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo.
A resposta de João vem na negativa. Interessante. Às vezes é mais fácil explicar aos outros quem somos dizendo quem não somos. É o que ele faz. João responde da seguinte maneira: eu sou o que não sou. “Eu não sou o Cristo”.
Temos nessa declaração do Batista uma questão muito forte a ser compreendida. Embora ele fosse confundido muitas vezes com o Messias por seu jeito de pregar, nunca sofreu ele próprio de “complexo de messianidade”. Esta é, atualmente, uma síndrome muito comum. Complexo de Messias é a doença da qual sofrem aqueles que se julgam imprescindíveis. Abarrotam a lista dos atingidos pais, mães, cônjuges, patrões, líderes espirituais, namorados e todos quantos se julgam assim: indispensáveis. Pessoas assim costumam acreditar quem sem ele o mundo não funcionaria. João não sofria desse mal. Quando trouxeram a ele a notícia de que Jesus, o verdadeiro Messias, estava se tornando mais popular que ele, sua resposta foi: “importa que ele cresça e eu diminua”.
O compromisso de João consigo mesmo era tal que jamais se permitiu travestir-se de outra figura que não fosse a sua própria.
Os fariseus e sacerdotes que queriam talvez por em dúvida tamanha certeza de João insistiram um pouco mais: “Então, quem és, pois? Elias? O profeta? Quem és? Que dizes de ti mesmo?”
Imagino que muitos não saberiam se manter firmes diante dessa sabatina. Pensativos já não seriam capazes de se reconhecerem. Ao olharem para o espelho veriam ali não mais o “eu mesmo” de outrora, mas apenas o espectro estranho de um “outro” qualquer. Assim se define a humanidade. Uns não sabem dizer quem são. Outros mentem para si mesmos. Uns se subestimam; outros se superestimam. Uns tentam se convencer de que são felizes, bem resolvidos emocional, espiritual, social e até mesmo sexualmente; outros preferem o anonimato – suas identidades são secretas até para eles mesmos.
João não luta com seus próprios fantasmas. Sabe quem não é ao mesmo tempo em que sabe quem é.
Finalizo esta reflexão oferecendo àqueles cuja identidade anda gasta ou até mesmo perdida alguns conselhos práticos – não são mandamentos, mas bem que poderiam ser:
Primeiro, jogue fora todo conceito de autocomiseração ou de auto-exaltação.
Segundo, pare de querer ser sempre o outro. Basta ao mundo que Elvis Presley tenha vivido uma vez. Para quê ser “cover”, se posso ser eu mesmo?
Terceiro, aceite o fato de que você é especial para Deus, exatamente por ser totalmente diferente. Não são as fabricações em série de Picasso que valem milhões, mas as obras únicas que ninguém mais possui.
Quarto, lembre-se de que o seu grande e verdadeiro tesouro não é aquele que se pode apalpar, ver e sentir. Seu grande valor habita na sua interioridade. É de lá que jorram os rios de vida que perdurarão inclusive na eternidade.
A partir de hoje não se detenha mais diante do trinômio filosófico que indaga: “quem sou, de onde vim, para onde vou?”. Repita para si mesmo: “sou o que sou, vim de Deus e para Deus irei”.