Destino - visão grega e judaico-cristã

on sexta-feira, 31 de julho de 2009


O Destino* é uma divindade cega, inexorével, nascida da Noite e do Caos. Todas as outras divindades estão submetidas ao seu poder. Os Céus, a Terra, o Tártaro e os Infernos estão submetidos ao seu poder. Suas resoluções são irrevogáveis. Em resumo, o Destino é essa fatalidade segundo a qual tudo acontece no mundo.

Os destinos individuais ou coletivos podiam ser consultados pelos deuses, mas não alterados. Para demonstrar sua inflexibilidade, os antigos o representavam por uma roda que prende uma corrente, no alto da roda uma grande pedra e, embaixo, duas cornucópias com pontas de lança.

Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito no livro do Destino.


(Márcio Pugliesi em "Mitologia greco-romana, arquétipos dos deuses e heróis", pág. 37-38 - Ed. Madras)


* A cosmovisão judaico-cristã, neste ponto, difere radicalmente do mundo helênico. Tanto para o judaísmo como, posteriormente o cristianismo, não existem fatos inevitáveis. Tanto no AT quanto no NT há sempre um "se" condicional. Caso o povo corrija suas ações, dê as costas ao mal e promova o bem, o porvir predito deixa de acontecer. Rejeita-se qualquer inexorabilidade e aceita-se peremptoriamente as intervenções misericordiosas de Deus na história de indivíduos e nações.

Suplício de tântalo.


Na mitologia grega, Tântalo foi um mitológico rei da Frígia ou da Lídia, casado com Dione. Ele era filho de Zeus e da príncesa Plota. Segundo outras versões, Tântalo era filho do Rei Tmolo da Lídia (deus associado à montanha de mesmo nome). Teve três filhos: Níobe, Dascilo e Pélope. Certa vez, ousando testar a omnisciência dos deuses, roubou os manjares divinos e serviu-lhes a carne do próprio filho Pélope num festim. Como castigo foi lançado ao Tártaro, onde, num vale abundante em vegetação e água, foi sentenciado a não poder saciar sua fome e sede, visto que, ao aproximar-se da água esta escoava e ao erguer-se para colher os frutos das árvores, os ramos moviam-se para longe de seu alcance sob força do vento. A expressão suplício de Tântalo refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável, a exemplo do ditado popular "Tão perto e, ainda assim, tão longe".
Houve outros personagens com o nome Tântalo: um rei de Pisa no Peloponeso, um dos filhos de Tiestes e primeiro marido de Clitemnestra.
O nome Tântalo aparece no Canto XI da Odisséia de Homero, nos versos 582-592.
(Fonte: www.wikipedia.org/wiki/Tântalo)

Perdi a fé, mas não sou incrédulo.

on quarta-feira, 29 de julho de 2009



Sem qualquer constrangimento, sem medo, saio do armário e confesso publicamente: Perdi a minha fé.

Perdi a fé em um Deus que precisa de pilha para mover o braço.
Perdi a fé em um Deus que recusa atender qualquer petição enquanto não houver santidade total.
Perdi a fé em um Deus que só opera nas micro-realidades.
Perdi a fé em um Deus discriminatório.

Perdi a fé, mas não sou um incrédulo.

Ganhei uma nova fé que celebra a imanência de Deus.
Ganhei uma nova fé que bendiz a compreensibilidade de Deus.
Ganhei uma fé que não espera por intervenções divinas. Creio que os valores do Reino são suficientes para que eu atravesse a vida sem perder a alma.
Ganhei uma fé que não tem expectativas de favoritismo.
Estou feliz pela fé que perdi, mas esfuziante com a nova fé que ganhei.

(Ricardo Gondim em "Direto ao ponto - ensaios sobre Deus e a vida", pág. 103-106 - Doxa)

Fé.


Como não consigo varrer para debaixo dos tapetes misteriosos da teologia, as respostas que preciso dar a mim mesmo, iniciei uma nova jornada para entender o significado da fé.

1. Fé não significa, para mim, uma força projetada na direção de Deus que o induz a agir.

2. Fé já não significa, para mim, uma senha que escancara as janelas das bênçãos celestiais.

3. Para mim fé significa acreditar que os valores, os princípios e as virtudes do Evangelho bastam para que eu enfrente a vida com todas as suas vicissitudes.

4. Fé significa, para mim, que o Espírito de Cristo dá gana de olhar para história com coragem, sem precisar apelar para o mágico, para o feitiço e para o sobrenatural. Por causa da fé não pedimos para ser poupados da dor.

5. A fé bíblica convoca que andemos nas pegadas de Jesus e não encolhamos diante do patrulhamento religioso, da perseguição e da morte, impostos pelos regimes imperialistas.

6. Fé significa, para mim, a possibilidade de rebelião contra o "status quo" porque ele não reflete a vontade de Deus.


Já que abandonei o paradigma de uma fé funcional, utilitária, de causa e efeito, quero, tão somente, ter peito para aceitar o risco de viver sem pé de apoio, de viver a liberdade prometida por Cristo e de almejar uma única segurança: saber-me gratuitamente amado por Deus.


(Ricardo Gondim em "Direto ao ponto - ensaios sobre Deus e a vida", pág. 99-102 - Doxa)

Ações que se eternizam

on terça-feira, 21 de julho de 2009


Weslei Odair Orlandi




Viver é uma dádiva divina. Em Deus existimos, vivemos e nos movemos. Por isso indagar se vale a pena viver é claramente descabido, mas e quanto ao que estamos vivendo? Vale a pena? Penso que algumas das nossas ações do dia a dia estão mesmo destinadas a não se tornarem perenes. Ao contrário disso, serão eternamente efêmeras (se é que esse paradoxo faz algum sentido). Por exemplo, daqui a um século que diferença fará se fui calvo ou se ostentei uma bela cabeleira? Que diferença fará se fui considerado pelos padrões de beleza bonito ou feio? Que diferença fará se andei a pé ou se usufrui dos confortos de uma Ferrari? Que diferença fará se paguei aluguel ou fui dono de um castelo? Creio que não fará diferença alguma! Se fui rico ou pobre, branco, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, se conheci lugares pitorescos ou se nunca cruzei as fronteiras do meu estado... Nada disso importará mais. Dentro de alguns anos todas essas coisas haver-se-ão destruídas por si mesmas.
Viver uma vida que vale a pena não é deleitar-se em efemeridades, mas saber dominar a arte de se eternizar dia após outro. Precisamos descobrir a chave para a realização de ações que se imortalizam.
Daqui a cem anos fará (e como!) diferença se eu fui um bom pai, um bom esposo, um bom pastor, um bom cidadão, um bom e fiel servo de Cristo. No futuro, quando chegar a vez dos meus descendentes escreverem suas histórias eu quero fazer parte delas. Quero ser lembrado como um bisavô ou tataravô que viveu dignamente. Afinal, eu sou a continuidade do que meus antepassados foram. Tudo que faço hoje é em última análise a soma de muitas vidas que foram antes de mim. Quando prego, meus pais pregam comigo. Quando tomo decisões, meus avós estão presentes. Não eles, claro, mas seus exemplos e ensinamentos. Dessa forma, acredito que eternizar momentos na vida de outros não só é possível como também é algo que deva ser levado a sério.
Existem pessoas cujas ações nunca serão lembradas – ou se o forem, apenas como infortúnios. Verdade seja dita: um futuro bem sucedido – me refiro aos meus netos, bisnetos, tataranetos e a mim mesmo daqui há um bilhão de anos – será sempre o resultado de um presente – eu e minhas ações – bem decidido.
Você pode não pensar assim, mas antes de me achar um escritor sem noção pense um pouco sobre Zaqueu – sim, ele mesmo, o homem que subiu na árvore para ver Jesus.
Zaqueu tornou-se um herói dos Evangelhos a partir do dia em que foi salvo. Mas ele não foi apenas salvo. Ele tornou-se também referência para o mundo. A fatia que conhecemos da vida desse homem que Lucas registrou em seu relato a Teófilo não é tão espetacular quanto o que restou dela após sua morte. A magnitude da conversão do publicano rico de Jericó está nas engrenagens que ele pôs para funcionar e não nas poucas linhas que Lucas reservou para sua biografia. Por causa de sua decisão inusitada de subir numa árvore para ver Jesus, milhares de pessoas irão entrar no céu um dia. Uma ação que se eternizou. É pena que nos faltem dados estatísticos que apontem quantas pessoas já vieram a Cristo por intermédio de pregações feitas sobre esse homem.
Preciso ser claro com você: precisamos sim nos preocupar com as nossas atitudes e decisões hoje, pois no futuro elas ainda estarão ressoando. Perguntas como “o que estou pondo em movimento hoje?” e, “o que meus atos de agora produzirão de benefício para mim e meus descendentes no futuro e na eternidade?” precisam ser feitas sempre.
Acredite. O seu futuro depende dos valores que forem encarnados hoje. Se a sua eternidade se chamará céu ou inferno, depende. Que ações você tem eternizado? O futuro espiritual de todos depende do quanto Cristo tornou-se permanente neles. Esta é indubitavelmente a razão porque Paulo utilizou-se tantas vezes da expressão “em Cristo”.
Se algum dia alguém se propuser a resumir minha história de vida, espero que seja mais ou menos isso o que terão para escrever: “Ele foi um homem que por causa de suas imperfeições quase pôs tudo a perder, até que um dia alguém o instruiu a ler João 6:27 – ‘não trabalhem pela comida que se estraga, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem lhes dará...´- e assim, as linhas tortas foram suavizadas. Hoje, ele não está mais entre nós, mas seus exemplos sim. Ele já não pode ser visto na terra; repousa agora nos braços do Pai Eterno”.
Esta sim, será uma história digna de ser contada.

Pastor, não psicólogo.


Quando alguém vai até o pastor, não está procurando um psicólogo, mas um pastor. É grande a frustração quando, em vez de pernetrar nos labirintos da alma humana e conduzir as ovelhas de Cristo no caminho da comunhão e da reconciliação, o pastor envereda por conversas, perguntas e preocupações que nenhuma relação têm com a oração, com Deus e com a vida outorgada a ele.


(Eugene Peterson em "A vocação espiritual do pastor", pág. 9 - Ed. Textus)

Encarnação

on sexta-feira, 17 de julho de 2009


Alysson Amorim


Rasgar o mar com a adaga flamejante de um general; arrepender-se; fazer de uma mulher matéria-prima para um bloco salino – tais são operações impossíveis a um Ser eterno.
A mulher corre, olha para trás e é acorrentada ao solo, toda dura e toda branca como eram seus dentes. A operação, se ao final paralisa, tem um final e tem uma gênese – é uma operação realizada na delirante sucessão a que chamamos tempo. Do mesmo modo, o arrependimento implica a negação de um momento em outro e a mão que feriu o mar foi a mesma que fechou a ferida em um segundo momento.
A eternidade, conforme concebida pelos homens, não é em nenhuma de suas variações a mera agregação de passado, presente e futuro – é, na sentença de Borges, “algo mais simples e mais mágico: é a simultaneidade desses tempos.” Na eternidade a sucessão não existe.
Deus, enquanto Ser eterno, vê-se impedido de vestir a capa do general; sofre da terrível limitação que lhe impõe a eternidade. Criou os homens a sua imagem e semelhança e despediu-os para longe de suas mãos. Seu pesadelo é, sendo onipotente, nada poder fazer no fluxo do rio que ele próprio pariu.
Aquele Deus que queima cidades e empunha armas é filho da ânsia dos homens.
O tema do auto-esvaziamento divino sugere uma fascinante inversão: Deus faz-se à imagem e semelhança dos homens; despe-se da onipotência para poder lançar-se no fluxo alucinante da história; troca o poder absoluto pela lágrima frágil. Tudo o que temos do Deus esvaziado é a lágrima rastejando em um rosto solitário, é o sangue cobrindo um braço impotente.
Pedir o estancamento do sangue, do nosso sangue, é não compreender o sentido profundo da encarnação. Quando a divindade decide despojar-se da imobilidade e sentir no peito a correnteza inapelável dos anos, o amor é sua força motriz (Jo 3:16), e o espaço e o tempo os elementos que compõem o cenário de sua atuação (Jo 17:18).
O sentido profundo da encarnação está em que o Deus encarnado não pode mais que o samaritano, mas pode mais – muito mais – do que o Deus eterno.