Dores Agudas

on domingo, 28 de setembro de 2008


Ricardo Gondim

Não me ressinto pelo que já sofri. Não me inquieto com a angústia que me assedia. Não esperneio, não fujo, não reluto, com o desespero que ainda vai chegar. (Deus teve apenas um filho sem pecado, mas nenhum sem sofrimento). Depois de mais de meio século de vida, descobri, finalmente, o que me magoa.
Querer repartir verdades que me entusiasmam e perceber que produzo inquietação.
Não encontrar ouvidos interessados nas descobertas que iluminam a minha alma.
Sentir-me estrangeiro entre antigos irmãos.
Ofertar o melhor do meu coração e acabar sob suspeita de ser manipulador.
Tentar fazer o bem e ver-me odiado.
Não conseguir transformar vaidade em admiração, coleguismo em amizade, bajulação em honra, ousadia em sensibilidade e zelo em delicadeza.
Saber que me retalharam junto com a pizza do domingo. Saber dos boatos que pessoas más inventaram e não ter como desmenti-los. Perder possíveis irmãos porque fui infeliz com uma palavra mal escrita ou com uma colocação tempestiva em alguma palestra.

Soli Deo Gloria.

O que o cristianismo é


NO ANO 180 o mártir Speratus respondeu ao cônsul Saturnino que lhe perguntara o que era o cristianismo: "Si tranquillas praebueris aures tuas, dico mysterium simplicitatis". Traduzindo: "Se mantiveres os ouvidos atentos, revelar-te-ei o mistério da simplicidade".

(Leonardo Boff em "Experimentar Deus" - Verus Editora, p.141)

Sexo e espiritualidade


Será que podemos substituir de forma tão direta um impulso (o da união espiritual) por outro (o da união física)? Duvido disso. Afinal, no jardim do Éden, quando Adão tinha perfeita comunhão espiritual com Deus, mesmo naquela época sentiu solidão e anseios que não encontraram alívio antes de Deus criar Eva.

Em vez de contrapor a sexualidade à espiritualidade, uma rivalizando com a outra, eu as vejo profundamente relacionadas. Quanto mais observo a obsessão de nossa sociedade com a sexualidade, mais percebo nisso uma sede de transcendência.

(...)

Quando a sociedade obstrui de forma tão abrangente a sede humana por transcendência, devemos nos surpreender que tais anseios se redirecionem para uma expressão de mero apego ao físico? Talvez o problema não seja que as pessoas estejam se despindo, mas que elas não estejam se despindo o suficiente: paramos na pele em vez de ir mais fundo, de ir até a alma.

(Philip Yancey em "Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados", pág. 26-27 - Ed. Mundo Cristão)

O dia D

on sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Weslei Odair Orlandi


Tenho para mim que a maior lição que a China ensinou para o mundo na realização dos jogos olímpicos de 2008 foi sobre como preparar-se bem para o dia de um grande evento. Desde a meticulosa construção do deslumbrante Ninho dos pássaros até os mais imperceptíveis detalhes, nada escapou do golpe de vista chinês. A necessidade de provar para o mundo sua capacidade de superação histórica e seu potencial para lidar com grandes desafios levou-os quase à perfeição. No entanto, as olimpíadas passaram e os elogios à China também. Todavia, nós, Igreja de Jesus, continuamos os preparativos para o grande evento que na linguagem bíblica recebe, ora o nome de “Aquele Dia”, “Último Dia”, “Dia do Fim”, ora “Dia do Senhor”.
Como cristão creio que Deus está no controle de tudo, não porque manipule os processos históricos o tempo todo, mas porque tem poder e autoridade para intervir quando, onde e da forma que quiser. Para mim, três elementos são indiscutíveis: a história caminha em determinada direção; essa direção é determinada por Deus; Deus age na história para garantir essa direção.
Nunca foi intenção de Deus permitir segurança e descanso plenos no presente histórico, seja de Israel seja da Igreja. Todos os objetivos alcançados tanto por um quanto por outro nesta presente era recebem o carimbo “ainda não”. A fé bíblica está claramente orientada para o futuro e é para lá que estamos caminhando. Há que se ressaltar, contudo, que o ponto mais emblemático dessa discussão não é saber sobre o dia em que o Dia do Senhor encontrará seu lugar ao sol, mas sobre como estar preparado para fazer parte dele sem surpresas desagradáveis.
Que o Dia do Senhor virá, não me restam dúvidas. Eu creio nele e o aguardo com expectativas apesar de não me atrever a dizer quando será (se hoje ou amanhã não sei, Deus o sabe). Julgo, por esse motivo, necessário provocar continuamente a minha fé com as palavras do inspirado apóstolo Paulo: “Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele Dia vos surpreenda como um ladrão; porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas. Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios”, 1 Ts 5:4-5. As razões para essa contínua necessidade são simples: constantemente sou tentado a me acomodar e a tornar secundário aquilo que é de inquestionável relevância. O perigo de me deixar abater pelo cansaço e pela aparente demora ronda continuamente meu coração. Satanás, nas penumbras da minha fé, quer anestesiar toda espécie de discernimento que há em mim. Por isso, cada segundo de vigilância é vital. Embora o Dia do Senhor seja uma incógnita, não me apanhará desprevenido. A idéia básica das Escrituras é a de que esperemos incansavelmente o “ladrão” – de pé, armados, e prontos para o ataque. É como um esperar atento atrás da porta.
Sobre o “dia D” do Dia do Senhor, Paulo disse aos Tessalonicenses: “não necessitais de que se vos escreva”, 1 Ts 5:1. Era-lhes suficiente saber que ele se cumpriria a qualquer momento. Quanto, porém, ao modo como deveriam esperá-lo, o apóstolo foi preciso, contundente e grave: “Nós que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e da caridade e tendo por capacete a esperança da salvação”, 1 Ts 5:8.
Oxalá você, eu e todos os cristãos aqui e em todos os lugares, estejamos sensíveis e preparados diante da iminente volta de Jesus Cristo. Que nosso brado seja retumbante e cheio de fé. Que em todos os rincões da terra sejam ouvidas as palavras finais do Apocalipse: “Ora, vem Senhor Jesus!”.
Que o “D” do dia do Senhor signifique para mim e para você desfecho divino, deslumbramento diante de Deus, dignidade, dança de alegria, doçura, delícia, e não desesperança, decepção, desmaio, derrota, dor...

Cegueira branca

on quinta-feira, 18 de setembro de 2008


Weslei Odair Orlandi

Esta semana chega aos cinemas do Brasil a versão cinematográfica do livro “Ensaio sobre a cegueira”, escrito pelo Nobel de literatura José Saramago. A história baseia-se numa tal “cegueira branca” que atinge primeiro os moradores de uma cidade não identificada e que, lentamente, se espalha país afora. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos à obscuridade, a meros seres lutando por seus instintos.
Desde que tomei esse livro em minhas mãos pela primeira vez e o li, lembrei-me de Laodicéia, a sétima igreja mencionada por João no Apocalipse. Infelizmente não sabemos se essa igreja usou o colírio prescrito por Jesus para recobrar a sua visão, entretanto sabemos com certeza que ela estava sofrendo de uma grave patologia comunitária – um tipo (infelizmente) não muito raro de cegueira coletiva.
Apesar de ser uma igreja importante na Ásia, os cristãos de Laodicéia estavam enfermos e nem se davam conta disso. Faltava-lhes a capacidade de perceber com clareza o seu verdadeiro estado de vida espiritual. Dizendo-se ricos, não passavam de miseráveis, pobres, cegos e nus. Não eram mais capazes de discernir coisa alguma. Como os moradores da cidade fictícia do livro de Saramago, os crentes de Laodicéia também haviam sido infectados por uma cegueira branca; seus olhos espirituais estavam cobertos por uma superfície leitosa, o que não lhes permitia ver nada mais que um clarão indecifrável.
Sinceramente eu espero que os esforços de Jesus Cristo em restaurar a visão daqueles irmãos tenham obtido êxito, pois desconfio que a igreja brasileira também esteja sob os efeitos dessa epidemia destruidora – os indícios são realmente fortes.
Pense comigo nos sintomas apontados pelo Médico Celestial daquela igreja e veja se não tenho razão em estar alerta.
O primeiro sintoma apontado como característico daquela doença foi a presença de uma gritante indiferença na vida deles – “sei que você não é frio nem quente”. Esse é o mal que se alastra Brasil afora. Um número cada vez maior de cristãos acredita que não fazer nada de mal é o suficiente para Deus, e assim “vivem” suas vidas numa terrível atmosfera de marasmo espiritual. Estão errados. Deus não faz vista grossa à indiferença. Ele nos quer vibrantes, participantes, ávidos por um crescimento cada vez mais intenso na sua graça e no conhecimento de Seu Filho Jesus. Alfredo dos Santos Oliva, professor no Sul-Americano de Londrina – Pr, fez a seguinte observação: “Podemos passar um verniz de crente em nossas vidas e até convencer as pessoas de que somos supercrentes, mas não vamos conseguir enganar a Deus, que tudo vê e tudo conhece”.
Outro sintoma percebido por Jesus na vida dos Laodicenses foi o da arrogância espiritual – “estou rico e não preciso de nada”. Haviam se esquecido de um ponto fundamental da fé cristã: humildade. George Ladd lembra-nos de que “se gabavam de uma acomodação espiritual pautada no esforço próprio; uma propensão materialista e de aparência havia conseguido enganar os seus corações”. Para surpresa geral de todos, os Laodicenses haviam perdido o foco, dando ênfase exagerada a um modelo de cristianismo nada ortodoxo quanto aos ideais de vida social, comunitária e fraterna; estavam mais preocupados com a aparência do que com a essência da fé cristã.
O quadro geral era caótico e uma intervenção medicamentosa agressiva era urgente, urgentíssima. O tratamento deveria incluir desde um retorno imediato ao primeiro amor até à compra de “ouro refinado no fogo, roupas brancas para vestir-se e colírio para ungir os olhos e poder enxergar”. Não seguissem essa prescrição e o fim seria trágico.
Por isso persevero na minha insistência. Desconfio cada vez mais que o mal de Laodicéia ainda não foi totalmente erradicado da Igreja hodierna. Acredito piamente que precisamos aceitar resignados o diagnóstico duro de Jesus e nos lançarmos de novo no pó do arrependimento para que possamos ser incendiados pelo fogo do Espírito Santo, tendo assim não mais o “brilho branco da cegueira”, mas o resplendor faustoso da verdadeira riqueza espiritual que são a presença de vestimentas alvejadas e do gotejar contínuo do colírio do discernimento e da visão espiritual. Uma igreja que canta, aplaude, faz manifestações pacíficas em defesa da liberdade de expressão, lota estádios e avenidas, mas que não tem ouvidos para ouvir e nem olhos para enxergar jamais poderá ser o tão necessário farol que brilha à noite