Comer peixe não basta.

on quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009


Weslei Odair Orlandi



Como sempre se faz depois da extravagância carnavalesca agora chegou a vez da contrição ritualística; está aberta a temporada do sagrado preceito da quaresma. Comer peixe durante quarenta dias é a palavra de ordem a partir do encerramento oficial da festa mais popular do país. Os dias de carnaval são sem limites. Nesse período só é proibido proibir; afora isso tudo pode. Palavras como profano, sensual, luxuria e lascívia de repente entram em efervescência nos jornais escritos e falados com tanta naturalidade que até os ossos ressequidos dos profetas são sacudidos no pó da terra. É a carne em seu estado mais deplorável... Mas agora não. Passados os dias da carne, vêm agora os dias do peixe. Está proibido o uso da carne – a do boi, naturalmente. A outra – essa que Paulo classifica como inimiga de Deus – deverá apenas fingir que foi sufocada. Pelo menos por alguns quarenta dias. Depois a gente vê o que faz.
Esse é o jeito “cristão” do povo brasileiro. É assim que nosso país aprendeu a lidar com seus pecados. Um dia dedicam juras de amor à carne, no outro em tom piedoso fazem penitências a Deus. Como se comer peixe bastasse para expiar tantos males, os mercados e peixarias agora têm a chance de mais alguns dias de bons negócios.
Comer peixe não basta. O Brasil precisa experimentar uma outra receita expiatória. Esse jeito tupiniquim de botar pano quente encima de tudo; essa habilidade surreal de transformar crimes, pecados e corrupções em pizza não cola quando o assunto migra da horizontal para a vertical. Ao reduzir o espaço da verdade bíblica aos templos, mosteiros, religiosos e beatas o Brasil sacramentou a morte da ética e da moral. Os modernos “showmen” – sejam eles padres ou pastores – avessos à sã doutrina são capazes de mobilizar as massas e de reunir milhares de fãs por toda parte, mas não a mente de seus admiradores. De fato, o evangelho conhecido país afora em várias vertentes católicas e evangélicas está muito distante daquele registrado nas páginas do Novo Testamento.
O Brasil precisa de contrição, penitência e reflexão, é verdade. Enquanto nosso presidente desfilava nos camarotes da Sapucaí empunhando como se fosse um troféu os famosos preservativos a favor da vida, Deus no céu certamente vertia lágrimas por ver tantas almas perecendo sem luz. Agora, feito mais um estrago não adianta correr ao supermercado para comprar o peixe penitencial.
À semelhança de tantos outros anos o mau cheiro da carnificina moral e espiritual vai continuar se proliferando e ascendendo aos céus. Só um arrependimento real, extensivo e intensivo como o de Nínive pode trazer de volta a esse país sua dignidade cristã há tanto tempo perdida.
Devemos ponderar com fervor o quanto de graça divina está sobre nós! Não fosse a mão de misericórdia que se estende incondicionalmente desde o Oiapoque até ao Chuí e já teríamos sido engolidos vivos. Entretanto, tudo tem limite. A graça será em breve recolhida do meio dessa brava gente brasileira. O que se deve então fazer com proficiência por esse imenso país tropical é alardear com voz retumbante que comer peixe não basta. Para uma nação em pecado a mensagem divina é única: “Se o meu povo que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e buscar a minha face, e se converter dos seus maus caminhos, então eu os ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra”, 2 Crônicas 7:14. Que se saiba em todos os rincões da terra que o carnaval brasileiro não goza de simpatia divina. Ao contrário, Deus o abomina.
Ouvi um pregador de renome dizendo que essa festa cultural deveria ser ovacionada por nós brasileiros, não fosse pela forma como é explorada. Quero discordar embora sabendo que ele não vai tomar nota desse meu tímido protesto. A verdade é que, sem pedir licença, invadem nossos ouvidos com enredos provocativos e nos obrigam a virar o rosto minuto após outro, ano após ano. O carnaval nunca foi e tampouco jamais será uma expressão cultural brasileira a ser recuperada. Em tempos idos essa manifestação popular seria chamada por profetas e apóstolos de “pecado”. Esse é o grande mal da cristandade hoje: mudamos as palavras e agora elas estão nos mudando.
No fim das contas, sem um único rubro na face, o Brasil come peixe, asperge cinza sobre a cabeça, estica a vida de bois e ovelhas e, espera, apenas espera pelo sábado de aleluia. Só isso. E ainda dizem que Deus é brasileiro. Se Ele o fosse, decididamente, esse país seria outro. Quem sabe um dia Ele não seja ao menos o Deus dos brasileiros. Aí sim, teremos motivos para sorrir, dançar e cantar não a festa da carne, mas a bem-vinda festa do Espírito. Essa sim, uma expressão da cultura santa e festiva da nossa saudosa pátria celestial.

A morte

on quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


A pregação da salvação pressupõe a morte como o encontro com um destino eterno. Ela é uma cristalização ontológica, uma solidificação do futuro. A vida é o tempo da oportunidade. Enquanto se vive, é possível modificar a orientação existencial para com o divino. Na morte cessa a oportunidade. O que foi será.


(Rubem Alves em "Religião e repressão", pág. 83 - Ed. Loyola)

Pecadinho, pecadão


A pequena mentira não é menor do que o grande crime. Estas são distinções humanas, superficiais. O sinistro do pecado moral está no fato de ser ele uma revelação da posição da alma perante Deus. (...) O pecado é sempre uma posição perante Deus. E por isso mesmo ele se apresenta como crime infinito, imperdoável, incapaz de ser expiado pelo homem.


(Rubem Alves em "Religião e repressão", pág. 82 - Ed. Loyola)

Tempo, tempo, tempo...


Weslei Odair Orlandi




Janeiro já completou o seu percurso. Agora é esperar mais alguns dias e despedir-se também de fevereiro. Logo, logo será a vez do adeus a 2009. É assim mesmo, um dia vai, outro dia vem. O tempo não pára e nós, como um conto ligeiro estamos passando sem que nos demos conta disso. Se não formos prudentes e não nos mantivermos atentos, poderemos ficar tão ocupados que perderemos o mais importante: viver intensamente para a glória de Deus.
Você já percebeu como nós desperdiçamos tempo na vida? Enquanto milhares de vozes e livros nos chamam a atenção para uma vida corretamente administrada, parece-me que cada vez mais cometemos falhas e erros com o que poderíamos ter feito, mas não fizemos.
Se há uma coisa que realmente precisamos aprender é sobre como aperfeiçoar a nossa habilidade de não perder tempo na vida. Podemos perder noites de sono, perder o programa de televisão, perder a festa para a qual havíamos sido convidados, mas perder tempo é realmente lastimável. Se você não dormiu na noite passada poderá recuperar o sono na noite seguinte. Se você não assistiu ao programa de televisão poderá aguardar um reprise, mas sinceramente nenhum de nós poderá reprisar o tempo que se foi.
Nosso tempo tem valor. Valor inestimável. Há tanta coisa que queremos fazer, ver, ler, desfrutar. Para cada um de nós, porém, o tempo é demasiadamente curto. Ernest Hemingway disse: “Tempo é o que menos temos”. Ele estava certo. Precisamos reordenar nossas prioridades. Precisamos reavaliar nossos compromissos. Precisamos cavar fundo à procura de espaço na agenda. Precisamos de uma nova lista. Não de uma lista qualquer como aquela de supermercado, mas uma lista de prioridades. Por exemplo, uma lista com metas espirituais a serem atingidas. Uma lista de oração. Uma lista de qualidades cristãs a serem praticadas. Uma lista de amigos a serem lembrados. De abraços a serem dados. De desculpas a serem pedidas.
Devemos admitir, entretanto, que gastamos mais tempo nos preparando para administrar bem nosso tempo do que praticando nossas decisões mentais. Concentramo-nos mais do que mudamos. Pare e pense a respeito do quanto você já falou consigo mesmo sobre essas mudanças necessárias. Quantas delas você já pôs em prática?
Deixe de gastar energia lutando contra sua agenda confusa e empregue forças em fazer a coisa certa. Em primeiro lugar decida o que não fazer. Não fique sentado à toa. Não cruze os braços. Depois, viva normalmente seu dia, mas como se ele fosse o último. E não se esqueça: “quer comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”.

A bela adormecida


Weslei Odair Orlandi

Já faz algum tempo aprendi apreciar alegorias bem elaboradas por escritores como C.S. Lewis, Tolkien e porque não citar também o brasileiríssimo Monteiro Lobato dentre outros. As analogias produzidas nos redutos de fantasia idealizados por esses grandes escritores ajudam-nos a redefinir valores, acrescentar riqueza, beleza e dimensão ao viver nosso de cada dia. Hoje, por exemplo, lembrei-me do francês Charles Perrault e sua bela adormecida. Fiquei aturdido quando percebi que essa fábula há tanto tempo incutida no imaginário infantil é na verdade um retrato quase que cruel desse momento hibernoso que a Igreja vive como um todo.
Aquela que deveria entrar no palco da história como detentora inexorável do papel de “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e irrepreensível”, tem surpreendido a muitos dos seus expectadores com o papel de uma bela adormecida à espera de um príncipe que lhe devolva a vida.
Embora a bela adormecida, não tenha estado morta, mas apenas profundamente embriagada por um sono secular, não fosse a chegada do jovem príncipe montado em seu cavalo branco e ela estaria bela e adormecida até hoje no mundo das fantasias.
Bela e adormecida. Eis a definição quase que exata do momento atual. É assim que vejo a magnífica Igreja do século XXI – peçamos vênia às exceções. A Igreja tornou-se bela ao mesmo tempo em que paulatinamente foi ficando sonolenta. Aos olhares menos atentos ela continua sorridente, corada, quase que encantadora, mas olhem-na de perto e verão que dorme o sono dos inocentes. Investimentos astronômicos de sete e dez milhões de dólares como é o caso de alguns dos belos mega-templos americanos – ou para ser mais brasileiro, de dez milhões de reais como é um caso recente sobre o qual tomei nota – impõem-se cada vez com mais freqüência à paisagem urbana das grandes cidades. Belos aparatos litúrgicos, bandas sofisticadas e coreografias minuciosamente ensaiadas ajudam a dar o toque final. Quase engana. Mas não. Não está tudo bem. A bela está dormindo. Enquanto ostenta sua envergadura gospel, seus bíceps midiáticos e seus troféus de reconhecimento público, deixa de ser ofensiva contra o pecado e toda espécie de invenções teológicas que os “showmen” da televisão nos obrigam deglutir.
Se você não consegue perceber isso que estou denunciando e chega a pensar que posso estar sendo ousado ou até mesmo ofensivo, cuidado, você pode estar se tornando mais uma vítima do sistema. Prefiro crer no provérbio bíblico de que fiéis são as feridas feitas por quem ama. Aliás, vale mais que um beijo fingido dado por alguém, acrescentou o sábio Salomão.
Minha proposta, porém, não é rotular o povo de Deus no Brasil de apáticos ou letárgicos. Pelo contrário, embora a igreja esteja adormecida, continua bela. Importo-me com ela, amo-a e creio em sua força colossal. Meu objetivo é na verdade exaltar a figura do humilde servo sofredor que por não desistir da sua missão de achar sua noiva, enfrentou o poder da maldição comprando com seu próprio sangue, e para Deus, a vida de sua amada. Este que não é um personagem do mundo da fantasia, mas o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, quer na verdade nos advertir sobre este tempo do fim. O sono que se abateria implacável sobre sua noiva nos dias finais ocupou por várias vezes seus sermões e ensinamentos. Vê-se aí a sua preocupação e relevância do tema apresentado. A noiva do Cordeiro não foi idealizada e gerada na cruz para viver sob o efeito devastador do sono espiritual, mas para manter-se sóbria, alerta e vigilante. Nos contos infantis a chegada de um príncipe sempre trouxe o final feliz que todos esperam. No retorno de Cristo à terra muitos estarão dormindo e, dormindo permanecerão. Para os que estiverem acordados o final será apoteótico e inigualável; para outros, porém, a notícia será tão cruel quanto o mais devastador dos pesadelos da noite. Perrault deu à história da princesa Aurora o final que pretendeu sua pena. Você e eu também seremos os responsáveis pelo fim que desejamos. Para aqueles que pretendem unir-se às virgens prudentes que embora cansadas pela espera não se deixaram vencer pelo sono e despreparo vale rememorar o brado de Paulo aos Efésios: “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará”, Ef 5:14.
A lembrança de que podemos nos parecer com os contos infantis me faz pensar na necessidade urgente urgentíssima que temos de buscar alternativas para alterar a realidade que vivemos. Creio que um bom começo será ir ao Getsêmani para aprender orar com Cristo. Na pior noite de sua vida, enquanto seus discípulos consumidos de tristeza dormiram, ele, posto em agonia orou mais intensamente.

Um convite à unidade


Weslei Odair Orlandi



Meu coração está inclinado à unidade. Quando li há alguns anos atrás o best-seller “Uma igreja com propósitos”, escrito por Rick Warren, fui tocado por uma explicação que ele dá sobre a existência de muitas igrejas. Deus ama a diversidade, argumentou ele. Pense por um momento se Deus tivesse feito o mundo usando apenas o amarelo. Seria um tanto quanto insosso cultivar um jardim com flores de várias qualidades. No fim das contas seria tudo amarelo. Mas Deus pensou em tudo e deu-nos de presente uma multiplicidade fantástica de cores com as quais podemos nos deliciar infinitamente. Eureka! Para mim essa analogia de Warren explicou tudo.
Primeiramente, percebi que Deus nunca pretendeu nos chamar para a institucionalização do Reino, isto é, nunca quis que perdêssemos de vista a realidade do Salmo 133. Ele nunca quis privilegiar alguns em detrimento de outros. No entanto, o que se observa hoje – com as devidas exceções, é claro – é um movimento contrário, encabeçado por líderes personalistas, que se julgam os únicos autorizados pelo Espírito a encontrar espaço para o enraizamento da Igreja de Jesus Cristo. Tais líderes são arrogantes por causa da necessidade que têm de se estabelecer como referência em suas comunidades e com um orgulho discreto esnobam aqueles que não contabilizam os mesmos números que eles. De difícil percepção, porém inocultáveis, esses são os que se estabelecem como os detentores da verdade, como se o “Pai, perdoa-lhes” de Jesus Cristo na cruz fosse seletivo e não inclusivo e extensivo.
Outra coisa que discerni é que na dinâmica da unidade, Deus sempre reservou lugar para a diversidade. No projeto divino as portas devem estar sempre abertas pois, cada porta representa uma nova oportunidade. Há lugar para todos os estilos, liturgias e governos. Quando criança, às vezes brincava de “o mestre mandou”, uma diversão que exigia dos participantes obediência cega e sem questionamentos. Depois de adulto, descobri que ainda tem gente que continua brincando de o mestre mandou. Querem forjar a liberdade do Espírito Santo de se mover com liberdade para transformar os cidadãos do Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo em soldadinhos uniformizados. Alguns dentre esses valorizam as formas sem esboçar qualquer nesga de rubro ao desprezar os conteúdos.
Também fui tomado pela consciência súbita de que a diversidade fortalece o Reino e não o contrário. É exatamente disso que trata o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12. Ele diz “o corpo (a igreja) é um só e tem muitos membros”, v. 12. E acrescenta, “o fato de um ser pé enquanto o outro é orelha, ou olho, ou ouvido não faz do corpo um ser frágil, desprotegido e susceptível às doenças”. Um não é grande enquanto o outro é diminuto; fraco enquanto o outro é forte; honroso enquanto o outro vive a desonra. Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. A propósito, qual é o batista que nunca bebeu na fonte de um metodista, ou um assembleiano que nunca se valeu dos dons teológicos de um presbiteriano e vice-versa? Qual comunidade nunca se inspirou nas igrejas tradicionais e etc? Tenho em minha biblioteca livros oriundos de todos os segmentos evangélicos no Brasil e no exterior. Ao escrever esse artigo estou removendo de minhas lembranças frases, pensamentos e afirmações de todos esses queridos irmãos. Afinal, existimos e coexistimos para nos sentirmos seguros neste porto de unidade cujo gerador e preservador é o Espírito Santo.
Finalmente, compreendi que Deus nos quer e nos aceita totalmente iguais embora absolutamente diferentes. Parafraseando o grande apóstolo afirmo que “todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer luteranos, quer anglicanos, quer congregacionais, quer episcopais, quer sejamos uma grande denominação, quer sejamos igreja local, e todos temos bebido de um Espírito”.
Somos totalmente iguais ao crermos que “há um só corpo e um Espírito, como também fomos chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos”, Efésios 4:4-6. No que diz respeito às ordenanças litúrgicas, sistema de governo e outras engrenagens de somenos importância somos às vezes absolutamente diferentes. Isso pouco importa. O que devemos aprender é a não julgar para não ser julgado. A mensagem do cristianismo repousa na verdade que é Cristo, o libertador, e não na funcionalidade das instituições. Que continuemos a crer (ou, que comecemos a crer) no valor e na propriedade da sujeição incondicional ao governo dAquele que orou ao Pai pedindo que “todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”, Jo 17:21.
A essa altura só nos resta lembrar que o que nos une é maior do que o que nos separa e que o que nos faz crescer é a atuação do poder de Deus e não o mero esforço de pessoas habilidosas.

Questões contemporâneas


Weslei Odair Orlandi



Em cada geração, a igreja depara com questões específicas. Na década de 70, a questão da inerrância bíblica era motivo de muitas controvérsias no evangelicalismo. Na década de 80, o debate acerca do papel da mulher e da sua posição na igreja passou ocupar lugar de importância.
Nas últimas décadas foi a vez do envolvimento político da parte dos cristãos que tomou lugar ao sol. Agora, com o despertar do novo milênio, novos debates têm sido feitos e novas questões emergem das sombras. Ao meu ver, as novas tendências e debates sobre temas como células tronco, aborto, eutanásia, ecologia, homossexualismo dentre outros, embora necessárias, pecam, não por polarizarem as idéias e grupos mas por forjarem aquilo que é mais importante.
Estou convencido de que nenhuma revolução ideológica, teológica ou denominacional deve ser objeto de atenção e estudo se o seu objetivo final não for exaltar a Cristo. O grande desafio dos debates não é garantir que haverá vencedores, mas sustentar e promover o nome de Jesus e seu Reino.
Uma das contribuições mais importantes do protestantismo para a história foi a concessão de liberdade à interpretação e reinterpretação bíblica. Tal movimento, naturalmente, pressupunha riscos, como o surgimento de aventureiros e pervertedores da ortodoxia da doutrina apostólica. Foi o que aconteceu. Com a busca frenética de novos paradigmas para a igreja, a essência da fé cristã foi relegada a planos inferiores.
Nesse contexto, passamos a experimentar a ascensão de novos vocábulos e conceitos supostamente teológicos como restituição, prosperidade, nova unção, transferência, batalha espiritual ao mesmo tempo em que aqueles nitidamente bíblicos foram perdendo força e devoção. Fomos enveredados por outro evangelho. Contudo, creio que ainda podemos contar com os sete mil joelhos que não se dobraram.
Ed René Kivitz afirma no livro Outra espiritualidade o óbvio – mas que para muitos hoje, já não é tão óbvio assim: “... a essência da fé cristã é Cristo – e, acrescenta – (...) Atualmente, a necessidade que algumas igrejas têm de levar seus fiéis à terra prometida é tão ardorosa que muitos não teriam nenhum problema de aceitar fazer a peregrinação até ela mesmo que Deus não acompanhasse a caravana. Moisés pensava diferente, claro. Para aqueles, a intimidade com Deus é secundária. Para esse, sem ela não se podia sair do lugar”.
Para os aventureiros do novo milênio a conversão, por exemplo, já não está no centro das discussões. Os frutos do arrependimento já não são mais esperados. Convertido não é mais aquele que se tornou nova criatura, mas aquele que está disposto a qualquer sacrifício para ver a tão sonhada “bênção”.
A qualidade da vida cristã já não é balizada pela formação de Cristo em nós. Os patamares de excelência espiritual já não são mais os velhos princípios morais dos tempos apostólicos. O bom cristão já não é mais aquele que reflete Cristo, mas sim aquele que prospera e cujos negócios tornam-se lucrativos.
A igreja, outrora lugar de comunhão de pessoas ao redor de Cristo, aos poucos foi se tornando balcão de negócios. Aqueles que outrora eram vistos como “irmãos”, agora não passam de empresários com potencial de mercado.
A missão da igreja, que há bem pouco tempo era fazer discípulos e prepará-los para o arrebatamento, foi perdendo sua ênfase evangelística e seu ímpeto de olhar para cima à espera de redenção. O testemunho da fé no Cristo que salva deu lugar à fé no Cristo que, se manipulado corretamente, é capaz de maravilhas. Rubem Alves escreveu em Religião e repressão: “O protestantismo clássico, como o catolicismo, se aproximava de uma filosofia, de uma visão de mundo, do universo, da história. Nessa arquitetura de tempos e espaços havia um problema central: o destino da alma depois da morte. A teologia cristã ortodoxa se construiu, toda ela, sobre o pressuposto do inferno. Todas as suas doutrinas foram desenvolvidas e só fazem sentido tendo-se o inferno como cenário dominante. Tão importante é a idéia de inferno que Santo Tomás de Aquino afirmou que a visão do inferno faz parte da bem-aventurança de Deus e dos salvos, no céu... Os grupos “evangélicos” de hoje, ao contrário, não se preocupam com o destino da alma depois da morte. As pessoas não são mais convertidas para serem “salvas”. Elas se convertem para viver melhor esta vida. O que interessa é a vida antes da morte, neste mundo. O que se busca é a “bênção”. Deus é o poder mágico que, se corretamente manipulado, conserta os estragos que o Diabo faz na vida de cada um. Talvez essa seja a razão para o seu sucesso. Parece que hoje são poucas as pessoas que vivem em função do medo do inferno. Os horrores desta vida são mais prementes. Como disse Dostoievski, “os homens não estão atrás de Deus. Estão atrás do milagre”. Deus é o poder que faz a vontade dos homens, se as fórmulas mágicas forem usadas segundo a receita”.
Mudamos os conceitos. Mudamos as palavras. E agora, elas estão nos mudando. Li, recentemente, a obra de C.S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz. A certa altura o demônio velho diz a seu sobrinho que uma das maneiras mais eficientes de desacreditar uma virtude é, em primeiro lugar, macular o seu nome, ou seja, introduzir associações que sutilmente alterem os sentimentos e percepções das pessoas, de modo que a palavra não mais signifique aquilo para que foi usada. O diabo é esperto. Antes, queríamos ir para o céu. Agora, queremos que o céu venha até nós.
Deus tenha misericórdia de nós. De todos nós. Ou resgatamos a marca de Cristo em nós como a reforma protestante que passou a brandir a verdade em todas as direções, ou assistiremos o naufrágio da igreja brasileira em bem pouco tempo.
Já vai longe o tempo em que as igrejas eram firmes no essencial e, às vezes, inflexíveis até no secundário. Agora, vale tudo, menos denunciar o pecado. Há uma espécie de conluio entre líderes e ouvintes. Enquanto eles falam de coisas boas os outros fingem acreditar. Eles não incomodam ninguém e os demais fingem não saber de seus erros, em alguns casos repugnantes.
A lista poderia seguir, mas já bastam esses exemplos de cristãos modernos e auditórios de entretenimento. Precisamos construir uma comunidade de discípulos que não queiram saber quem foi para o “paredão”, mas que sejam resolvidos naquilo que tomam como regra de fé e prática.
Só Deus sabe quem é quem. Quando falamos de questões contemporâneas, estamos falando da necessidade de uma igreja relevante. Que seja simples, sem ser simplista. Que seja ortodoxa sem ser legalista. Que seja firme, sem ser intolerante. Uma coisa é ser joio, outra coisa é querer impedir que o trigo experimente sua liberdade na lavoura. Que a graça bendita de nosso amado redentor nos ensine ser contemporâneos, contextualizados, salientes, capazes de dialogar e causar impacto no mundo. Que Deus nos ajude a andar no limite, encarar a baixaria da televisão, as pretensões falsas dos chamados “apóstolos da fé”, as magias de Harry Potter sem cair em nenhuma pegadinha. Que rumemos por caminhos novos guiados pelo sopro do Espírito divino sem perder a centralidade da sã doutrina.

O caso Eloá


Weslei Odair Orlandi


Mais uma vez o país parou para ver boquiaberto a ascensão da estupidez humana. Infelizmente, casos como o da adolescente Eloá, seqüestrada e assassinada pelo ex-namorado em Santo André – SP, não são mais pontuais. Com a chegada do século XXI os jovens parecem ter perdido seus referenciais e agora passam a atirar em todas as direções. Nos Estados Unidos a invasão de universidades seguida de mortes e suicídios já não é mais um acontecimento isolado; no Brasil também temos experimentado a nossa dor particular.
Com o desfecho de mais um episódio a pergunta que fica no ar é: “quando isso vai acontecer de novo?”. “Quem será a próxima Eloá?”.
Refletir sobre os motivos de um jovem depressivo como Lindemberg não é tarefa fácil. Nem mesmo psicólogos e psiquiatras parecem estar certos do que está por detrás de tudo. Convocados pela imprensa para dar explicações deixam apenas uma certeza: os jovens estão desnorteados e precisam urgentemente resgatar valores que foram descartados como obsoletos. Um deles afirmou em entrevista ao Jornal Hoje: “Lindemberg não é uma vítima da sociedade, mas um fruto dela”. Sábias palavras.
Todos nós sentimos que alguma coisa de muito grave está acontecendo com as bases morais da nossa cultura. Sob olhares incrédulos os fundamentos estão sendo transtornados sem que nada ou quase nada seja feito. Os números são alarmantes. A gravidez entre adolescentes, o suicídio entre jovens, a violência, o uso de armas e drogas nas escolas, a promiscuidade sexual, o desrespeito e a indiferença não param de bater novos recordes a cada ano. Seria este o indício da ineficiência da sociedade e suas leis?
Creio que precisamos enxergar mais além. Olhar para além dos sintomas e enfrentar as causas fundamentais, as raízes do problema. A juventude de hoje está sendo criada – consciente ou inconscientemente – e preparada para o niilismo (doutrina segundo a qual nada existe de absoluto). O credo pós-moderno que nossos jovens seguem tem como máxima filosófica o “se gostar, faça”. Some-se a isso a mensagem subliminar de que podem tudo. Esse ambiente educacional que rejeita a noção da verdade e que desloca da realidade os nossos filhos iludindo-os com a idéia de que são superiores é, contudo, altamente erosivo.
Muitos de nossos filhos simplesmente não compreendem ou aceitam o fato de que existem verdades absolutas e que devem ser regidos por elas. Josh Macdowell define verdade absoluta como sendo “aquelas que são verdade para todas as pessoas, em todas as épocas, e em todos os lugares”. A sociedade, porém, diz que a verdade é aquilo em que eu acredito, mesmo que eu seja o único a crer nela. Essa é a gênese da estupidez das escolhas que fazem e das atitudes que adotam.
Criar nossos filhos em meio a uma “geração corrompida e perversa” (Fp 2:15) não é tarefa fácil. Mas há esperança! Não há caminhos fáceis, mas há esperança. No fundo, no fundo, o que nossos filhos querem é sentirem-se amados e seguros com aquilo que oferecemos a eles. A geração shopping center pode até não assumir publicamente a necessidade que tem de uma moral forte, constante e objetiva, mas quando milhares deles saem à rua para chorar a perda de uma amiga querida o que estão dizendo é que a liberdade excessiva que lhes foi outorgada está cada vez mais nauseante; que eles precisam mesmo é conhecer o certo e o errado absolutos.
C.S. Lewis escreveu em seu livro Cristianismo puro e simples:
“Sempre que encontrar alguém que diga não acreditar num verdadeiro certo e errado, verá essa pessoa contradizer-se dentro em pouco. Ele talvez quebre uma promessa que fez a você, mas, se for você quem quebrar a promessa feita a ele, com certeza ele se queixará, “Não é justo”, na mesma hora. Ao que parece, portanto, devemos acreditar num verdadeiro certo e errado. As pessoas podem às vezes enganar-se quanto a isso, assim como alguns não sabem somar corretamente; mas não se trata de simples gosto e opinião, como também não acontece com a tabuada”.
Precisamos desobstruir os poços entulhados pelo lixo que a literatura, a televisão e as conversas de fim de tarde têm lançado diariamente neles. O problema dos nossos jovens não está no fato de que gostam de sexo, de diversão e de liberdade. Estes impulsos não são rivais da verdade absoluta. A questão central é que tiraram Deus do palco para colocarem a si próprio como “ator principal”. Dessa forma, fica valendo a pergunta que fez Philip Yancey: “Quando a sociedade obstrui de forma tão abrangente a sede humana por transcendência, devemos nos surpreender que tais anseios se redirecionem para uma expressão de mero apego ao físico?”. Fica valendo também a resposta que ele mesmo encontrou: “Talvez o problema não seja que as pessoas estejam se despindo, mas que elas não estejam se despindo o suficiente: paramos na pele em vez de ir mais fundos, de ir até a alma”.
O desafio de ajudar nossos jovens a reencontrar os valores de Deus para suas vidas está lançado. Pais, avós, professores, pastores e líderes em geral precisam resgatar com urgência o código moral e ético da Palavra para inculcá-los nessa geração teen.
Como você deve ter percebido Lindemberg não é um caso isolado. Eloá não é uma pessoa apenas. Tanto um como o outro são apenas a amostragem que temos de uma sociedade perdida. O iceberg ainda não foi devidamente dimensionado.

Ouvir com os olhos



Weslei Odair Orlandi


Tenho pensado na quantidade de artigos, livros, mensagens, folhetos, e-mails e jornais que lemos anualmente falando sobre temas espirituais. Só no meu endereço eletrônico recebo dezenas de textos todos os dias. Uma verdadeira invasão virtual. Eu que, confesso, sou um tanto quanto exagerado em minhas leituras, leio anualmente algumas milhares de páginas. Como papel aceita tudo, deparo-me às vezes com profundos mau gostos literários. Erros de gramática, ignorância em semântica, equívocos de interpretação (uma lástima hermenêutica) e heresias francamente assumidas sobejam por toda parte; mas também encontramos leitura de gosto apurado, é verdade.
Alguém disse que “somos o que lemos”. Concordo em partes, discordo em outras. Se de fato fossemos tudo aquilo que lemos, a raça humana bem poderia estar em outros patamares de civilização e vida transcendental. Aliás, Jesus não precisaria ter estabelecido o conhecido paradoxo no sermão da montanha sobre o “ouvinte” prudente e o insensato. Bastaria incentivar-nos a ler. Exemplo clássico de leitura improdutiva é a que muitos fazem da Bíblia. Lê-la simplesmente pelo fato de que é o Livro Sagrado dos cristãos não resulta em mudanças profundas. Alguns dos intelectuais mais profanos são profundos conhecedores das Sagradas Letras. Eugene Peterson afirma de maneira lúcida e precisa que “ler a Bíblia não é o mesmo que ouvir Deus. Um não está necessariamente ligado ao outro, embora se presuma muitas vezes que sim”. Ouvir e ler não são a mesma coisa. E aí começam as complicações. Muitos de nós lemos a Bíblia simplesmente pelo hábito evangélico ao qual fomos condicionados ou então pelo medo de não sermos religiosamente corretos. Nada mais que isso. Antigamente, antes da invenção da imprensa, os cristãos ouviam mais do que liam. João chegou a dizer: “Bem-aventurado aquele que lê (note o singular), e os que ouvem (note o plural) as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”, Ap 1:3 – Versão Revista e Corrigida. Dessa forma, ouvidos atentos e treinados absorviam a mensagem com mais facilidade. Hoje, a oralidade quase foi extinta. Milhões de Bíblias e outros textos impressos substituíram a prática do ouvir. Tornamo-nos a cada dia reféns das letras e nem nos damos conta de que elas quase não estão transmitindo nada a nós. Como disse o Nobel de literatura José Saramago, sobrevoamos muito e não pousamos em quase nada.
Ao divisarmos os limiares de 2009 gostaria de convidá-lo a uma retrospectiva para analisar o que lemos, o porquê lemos e quanto dessas leituras transformamos em verdades para nossas vidas. Se ao final de sua análise o diagnóstico apontar para um acúmulo de informação sem relação alguma com a prática diária de sua vida, não entre em pânico. Talvez você esteja sendo vítima do mal dos ouvidos que ouvem sem ouvir. Fique tranqüilo, o remédio para essa doença já foi descoberto. A maioria dos leitores de hoje tem sido vítima dessa endemia gritante. A bem da verdade, os resultados são quase sempre surpreendentes.
A desvalorização das letras como instrumento de Deus para falar conosco pode ser discutida, revertida e convertida novamente em verdade sine qua non. A proliferação dos recursos literários não deve ser vista apenas como um bem de consumo, mas principalmente como um jeito sutil e elegante de Deus gritar aos nossos ouvidos sua mensagem. Seguindo o raciocínio de Peterson “precisamos ler a bíblia não para encontrar bons sermões, mas para ouvir Deus”. Ele nos deu olhos para ver e ouvidos para ouvir. Uma vez que hoje lemos mais do que ouvimos então precisamos transformar nossos olhos em ouvidos, isto é, precisamos desentupir nosso coração e mente de todo lixo cultural, barulho intelectual, fofoca descartável e conversa suja, para de novo ouvir a voz do Senhor.
Precisamos voltar nossos olhos para a Palavra desafiando-nos a nós mesmos. William Shakeaspeare escreveu: “Oh, aprenda a ler o que o amor silencioso escreveu. Ouvir com os olhos é a maior sabedoria do amor”.
Qualquer cristão em sã consciência jamais irá contentar-se com a conclusão de que suas leituras (devocionais ou sistemáticas) não passaram de exercício mental. O mandamento que se refere a Deus não é LEIA, mas OUÇA. Ouça ao ouvir! Ouça ao ver! Ouça ao ler!
“Quem tem ouvidos para ouvir (e olhos para ler), que ouça”, Mc 4:9 – acréscimo meu.

Prefiro viver no Egito


Weslei Odair Orlandi



“Prefiro viver no Egito”, disse um jovem cristão egípcio ao escritor Philip Yancey. Apesar das perseguições e tolerância quase zero à minoria cristã em seu país, esse jovem não quer viver na América. “Aqui não temos pornografia, álcool e pouco sexo antes do casamento, e me sinto seguro andando pelas ruas”, acrescentou ele.
Quando paro para pensar que nós do ocidente nos gabamos de ser maioria cristã, sinto-me envergonhado diante de um testemunho desses. Nós que temos total liberdade para professar a fé cristã deveríamos ser de fato os ícones da mensagem de Cristo. Entretanto, o que temos visto são pessoas que irresponsavelmente assumem apenas nominalmente a nomenclatura de cristãos, mas que vivem de maneira dissoluta ignorando por completo os princípios santos da Palavra.
Numa tendência antagônica ao Evangelho os cristãos hodiernos tendem a produzir valores que nada lembram os ideais do Reino dos Céus. Somos conhecidos por nossos templos com arquiteturas clássicas e modernas e por nossa música gospel cada vez mais popular; estamos na mídia e reunimos com facilidade um número cada vez maior de seguidores, mas nem por isso estamos honrando o nome de Cristo com proficiência. Talvez devêssemos prestar mais atenção aos ensinamentos básicos do cristianismo enveredando-nos pelos caminhos do amor, da compaixão, da ética moral e da verdadeira santidade.
Ficamos horrorizados quando os “não-cristãos” olham para nós e com ar zombeteiro nos incluem em suas chacotas. Sabemos distinguir um cristão comprometido, que aceita ser um discípulo verdadeiro de Jesus, de um “cristão domesticado”. Nem todos, porém, sabem fazer essa distinção. Boa parte do mundo tira conclusões a nosso respeito a partir do todo. Quando pastores inescrupulosos são presos acusados de estelionato; quando moças ficam grávidas antes do casamento; quando rapazes são flagrados em lan-houses flertando com sites pornográficos; quando casais se traem e abandonam um ao outro; quando clientes engrossam as listas de inadimplência, é aos cristãos em geral que eles criticam, e não apenas aos implicados.
Não entenda que minhas afirmações sobre certas perversões do cristianismo entre nós têm a intenção de dizer que está tudo arruinado. Não está! Existem ainda sete mil homens que não dobraram seus joelhos. No entanto, ratifico a idéia de que nossa visibilidade no cenário nacional como povo de Deus tem sido comprometida muitas vezes por questões que em vez de “glorificar ao Pai que está nos céus” (Mt 5:16), faz com que “o nome de Deus seja blasfemado entre os gentios por nossa causa” (Rm 2:24).
Ora, sempre que isso acontece, através de nossos atos estamos fazendo com que o mundo despreze Deus e se escandalize rejeitando qualquer possibilidade de se tornar um com Cristo. Não podemos permitir equívocos. O mundo não tem outra maneira de ver a Deus a não ser através da Igreja. Se a Igreja não vive e não reflete o caráter de Cristo, então o mundo blasfema de nós. Creio ser esta a lição que nos dá a experiência de João em Patmos. Quando ele ouviu a voz do que falava com ele, voltou-se, e viu, “sete candelabros de ouro e entre os candelabros alguém semelhante a um filho de homem” (Ap 1:12-13). A primeira visão de João não foi Cristo (aquele que falava com ele), mas a Igreja (os sete candelabros de ouro). A lição é clara: quando alguém ouve falar sobre Cristo, na tentativa de vê-lo, vai primeiro à igreja. Cristo está dentro dela. Contudo, se ao invés de encontrar ali homens e mulheres verdadeiramente comprometidos com a verdade que dizem crer, for apresentado a pessoas cujo testemunho é duvidoso e às vezes escancaradamente vergonhoso, fugirão e ficarão impedidos de experimentar o grande amor de Deus.
Com quais valores estamos realmente comprometidos? Estamos de fato defendendo as mesmas causas que Deus? Com que intensidade estamos refletindo a santidade do Salvador? A finalidade última de Deus é que a Igreja exista para o louvor da sua glória e não que ela aspire por enriquecimento e conforto; é que ela fixe os olhos, não naquilo que se vê, pois o que se vê é transitório; não naquilo que tem lugar apenas aqui e agora, mas no que não se vê e, contudo é eterno.
Que nosso empenho seja com a justiça, com a pureza de espírito, com a busca da presença de Deus, com a prática do amor e da misericórdia, com o fervor do Espírito, com o ser sal e luz, com a criação de possibilidades de salvação para todos, com a humildade e com o testemunho vivo e eficaz. Que não sejamos conhecidos por rótulos e máscaras, mas por sermos portadores da “síndrome de Jesus”. Afinal, o que os outros pensam sobre nós é importante sim. Com essa afirmação estão de acordo todos os autores das Escrituras.

Depois que reli o Evangelho de João

on quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


Weslei Odair Orlandi



Por várias razões os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João fazem parte do cânon do Novo Testamento. David Alan Black no livro “Por que 4 evangelhos?” resume os propósitos centrais porque foram escritos. Segundo ele “Mateus é produto de uma das primeiras determinações da igreja para preservar os ensinamentos de seu fundador e para justificar sua separação de Israel. Por sua vez, o evangelho de Lucas é o produto da crise causada pelo surgimento das igrejas gentílicas ao lado da igreja dos judeus”. Quanto a Marcos e João ele afirma: “foi a necessidade vital de fundir as duas tradições (igreja de Jerusalém e igreja gentílica) em uma unidade inseparável que levou à composição do evangelho de Marcos (...) João suplementa os relatos anteriores ao fornecer informação não acessível a eles”. Essa é uma análise rápida e obviamente não engloba outros objetivos igualmente importantes. Porém, a sua informação de que João suplementa os relatos anteriores é bastante interessante e é nessa “adição joanina” que eu gostaria de convidá-los a pensar um pouquinho a partir de agora.
João, o continuador da obra predita pelo outro João, o Batista, e inaugurada pelo Mestre, foi meticuloso nas escolhas que fez ao narrar os fatos testemunhados por ele e seus demais companheiros durante os anos que passaram com Jesus. É sabido de todos que ele não relatou cada um dos acontecimentos que viu. Se assim fosse seu evangelho não teria apenas vinte e um capítulos. Leia depois o que ele mesmo escreveu sobre isso no último versículo do seu livro. Assim, fica patente a todo leitor atencioso das Escrituras que cada situação narrada foi propositalmente escolhida.
João não escreveu o quarto evangelho para simplesmente nos fazer lembrar o que Cristo fez, mas para nos fazer saber que Ele é o filho de Deus, para que creiamos nEle e para que saibamos que Ele tem poder para alcançar vitória sobre todas as dimensões da nossa vida.
Pense comigo. Em Jo 2:1-11 temos o primeiro milagre de Jesus – uma demonstração contundente do seu poder sobre a qualidade. A superioridade do vinho apresentado pelos serviçais ao mestre-sala era simplesmente inigualável. Em Jo 4:43-54 temos a cura do filho de um oficial do rei, um milagre feito à distância para nos lembrar que ele desfaz sem dificuldades a lógica do espaço.
Em Jo 5:1-9 é a vez do paralítico de Betesda experimentar o poder curador de Jesus. Nesse episódio temos dois fatos dignos de nota: primeiro Jesus desmonta com esse milagre a lógica do merecimento, pois uma vez que para ser curado era necessário entrar primeiro no tanque segundo a crendice popular e Jesus o curou ali mesmo onde estava sem fazer esforço algum fica então evidente os sinais da sua graça em ação; segundo, o paralítico estava à espera de sua cura havia trinta e oito anos, o que Jesus em questão de segundos resolveu para ele provando quem ainda é (e sempre será) o Senhor dos tempos e das horas.
A seqüência da narrativa continua cheia de surpresas agradáveis e a seguir temos em Jo 6:1-13 a multiplicação dos pães e dos peixes numa prova irrefutável de que seu poder também diz respeito às leis da quantidade. Nos versículos 16 a 21 do mesmo capítulo seis é a vez de se registrar o seu poder sobre as leis da natureza quando andou sobre o mar e no capítulo 9 a sina de um cego de nascença é transformada estabelecendo-se assim o poder de Jesus sobre os destinos da humanidade. Finalmente em Jo 11:1-45 Lázaro é ressuscitado depois de quatro dias no túmulo e o Mestre chancela aí o seu poder sobre a morte.
Está claro, portanto, que os milagres narrados por João foram realmente propositais. Essas diferentes dimensões da vida postas sob o poder de Cristo nesses acontecimentos miraculosos foram destacadas para que ao olharmos para o Filho de Deus não duvidássemos de sua versatilidade, poder e imprescindibilidade. Ele fez por aquelas pessoas o que também está pronto para fazer em favor de cada um dos homens atualmente.
Onde a tristeza estiver presente e a vida caótica, Jesus quer ser o causador de uma revolução em prol da qualidade de vida. É só fazer o que ele manda. Onde as distâncias forem grandes demais e os objetivos inatingíveis Ele se propõe a ser o encurtador de caminhos. Onde a corrida for contra o tempo e a auto-estima estiver escassa Ele quer se estabelecer como aquele que vê e alcança os marginalizados. Onde as leis naturais se impuserem como inimigas do homem, onde os destinos parerecem inexoráveis, onde a morte surgir como a última palavra, onde, onde, onde... Bem, não importa onde, mas apenas quem. Quem precisa e quem ajuda: você, eu, nós, Ele.
Creio que João nos deu elementos suficientes para perceber que a missão maior de Cristo entre os homens foi a de trazer salvação a todos. Ele não veio para que os pobres nunca mais sejam pobres. Que os doentes nunca mais sejam doentes. Que os velhos deixem de ser velhos. Não. Exteriormente tudo pode até parecer como dantes. A verdade, porém, é que a presença de Jesus será sempre a responsável por mudanças emocionais, espirituais e de reestruturação social, histórica e pessoal onde quer que ela se faça necessária.
Conforme descrito por João, quando Jesus chega, vê, fala, toca, anda e sente todas as coisas se transfiguram, porque o homem passa a ver o mundo de uma forma nova. É assim que eu me sinto depois de ler mais uma vez o Evangelho de João nessa última semana. Um homem ainda mais revigorado e participante ativo de uma realidade cada vez mais modificada.
Hoje, depois de já ter lido os escritos de João por tantas vezes, eu não tenho medo algum de cantar:
“Bem pouco importa eu habitar
Em alto monte, à beira-mar,
Em casa ou gruta,
Boa ou ruim,
É sempre céu
Com Cristo em mim”.

Recado aos meus (poucos) amigos.

on domingo, 15 de fevereiro de 2009



Ricardo Gondim



Comam brócolis.


Não fujam do exame de próstata.


Leiam bons romances.


Façam exercício.


Sacramentem amizades com um Cabernet.


Evitem o Diogo Mainardi.


Não tomem café depois das dez.


Andem descalços em casa.


Visitem um hospital para crianças com câncer uma vez por ano.


Não esqueçam do aniversário de quem vocês amam.


Comprem um dicionário – e consultem.


Desliguem a televisão.


Não discutam com quem “se acha”.


Recitem um poema em voz alta toda semana.


Não falem em corda em casa de enforcado.


Leiam a Bíblia para um enfermo.


Meditem com a porta do quarto trancada.


Anotem endereços de blogs alternativos.


Sejam moderados no açúcar e na gordura saturada - torresmo, nem pensar.


Leiam o Alysson Amorim, o Elienai, a Geruza e o Paulo Brabo.


Não percam as edições diárias do Pavablog nem quando estiverem na Manchúria.


Nunca pilotem motocicleta, nem aceitem carona na garupa.


Aprendam a gostar de música clássica – Johan Sebastian Bach é um bom começo.


Reciclem o lixo de casa, do escritório, da igreja - e do coração.


Não morram logo, por favor; preciso de vocês por perto.


Soli Deo Gloria.




(fonte:www.ricardogondim.com.br)

Ser homem

on sábado, 14 de fevereiro de 2009

NÃO SOMOS MAIS HOMENS QUANDO DEIXAMOS DE SER FEMININOS, MAS QUANDO DEIXAMOS DE SER MENINOS.

Fonte: Anônimo

Hoje

on quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009


Ricardo Gondim






Hoje é dia de poucas palavras.



Dia de um silêncio parceiro;



Dia de casulo, de encapuzar o coração;



E represar a alma toldada de tristeza.






(site: www.ricardogondim.com.br)

Para quem deseja ter uma vida longa e que vale a pena viver.

on sábado, 7 de fevereiro de 2009


Weslei Odair Orlandi



Filhos e filhas, venham me escutar! Eu lhes direi o que significa amar e obedecer ao Senhor.




Você deseja ter uma vida longa e que vale a pena viver?




1. Cuidado então com o que você fala!




2. Evite dizer mentiras e falar mal dos outros.




3. Afaste-se do pecado e esforce-se para fazer o bem.




4. Procure viver em paz com todos; esforce-se ao máximo para conseguir isso.




5. Decida-se por uma vida justa, piedosa e irrepreensível.




6. Jamais acalente um coração insensível e irreconciliável.




7. Jamais se esqueça de que embora lágrimas e frustrações também fazem parte do pacote da nossa frágil existência, o melhor de Deus ainda está por vir.








Então, viu como é simples? E mais: posso garantir-lhe a eficácia desses princípios e a razão para isso é que extrai-os do Salmo 34:11-22.








(Fonte: Bíblia Viva, 2a. edição/1981, 2a. reimpressão: 2005 - Ed. Mundo Cristão)

O encontro

on sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009


Ricardo Gondim



Genilson entrou no enorme salão, contou dezoito fileiras de bancos e sentou-se. O lugar estava vazio. Um silêncio aterrorizante dominava o recinto. As paredes absorviam qualquer barulho. Ninguém ultrapassou a barreira dos dezoito bancos; ninguém se sentou entre Genilson e o altar.
“O que me trouxe a este lugar?, perguntou-se. Sem nunca ter feito uma oração, participado de um rito ou lido qualquer catecismo, sentiu-se perdido. Tudo lhe intrigava: a altura do teto, a frieza do piso, a dureza do assento, a altura do púlpito, a ausência de vizinhos.
Genilson esteve vinte e dois minutos na vastidão do misterioso espaço. Sentia que um nada lhe tocava. A quietude lhe enchia daquele vazio assombroso. O temor do lugar o levantou. Caminhou arrastando os pés na direçao da entrada, agora saída. Esqueceu-se de contar os passos, desceu as escadas para alcançar a calçada.
Voltou para casa e o filho quis saber onde estivera. “Na presença de Deus”, respondeu.

Soli Deo Gloria