Possibilidades que a conversão não exclui

on quinta-feira, 31 de julho de 2008


Weslei Odair Orlandi

Gostaria de poder dizer que o “tudo se fez novo” de 2 Coríntios 5:17 inclui também a impossibilidade de cometer novos erros na caminhada. Não posso. Pelo menos não para aqueles que ainda não se desvencilharam do invólucro terreno. É claro que Paulo estava certo ao dizer que “se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. Porém, preciso fazer aqui algumas considerações. O que de fato passa e o que não passa no momento da nossa inserção mística no corpo de Cristo?
A conversão a Cristo é realmente um grande mistério. Nela está a gênese do grande e maior propósito de Deus para a humanidade: resgatar em nós a imago Dei, patrimônio espiritual que perdemos em Adão. A conversão é um instante singular na vida de quem a experimenta. Num piscar de olhos, isto é, um segundo depois de sua entrega a Cristo e, pronto, as coisas velhas passam, o que era velho se faz novo, o pecador torna-se ex-pecador. Ainda que os seus pecados eram muitos e gravíssimos, o sangue de Jesus o torna mais alvo que a neve. Ele deixa de ser cidadão do reino das trevas para ser cidadão do Reino de Deus. Deixa de ser criatura para ser verdadeiramente filho. Deixa de ser um bastardo para ser um herdeiro legítimo. Fica para trás a miséria espiritual, a incontinência, a impiedade, a morte, as ofensas, a ira e etc.
Porém, a conversão não elimina tudo, pois a ação de Deus não é arbitrária. Ninguém fica esterilizado depois da conversão. Ela não elimina nossas vontades. Um encontro com Deus garante novos rumos, mas não exclui algumas das possibilidades pouco desejáveis para quem quer andar na luz. Por exemplo, um cristão nascido de novo não deixa de conviver com a possibilidade, ainda que remota, de cometer novos pecados, desagradar a Deus ou de desobedecê-lo. Deus não interrompe o fluxo da livre escolha em nenhum dos seus filhos. Esse é o preço da liberdade. A vontade de Deus é que nunca pequemos, todavia ela não é repressiva ou persecutória. O Senhor bem poderia agir assim, mas então o acusariam de subserviência. Embora correndo o risco de nos ver cair, preferiu deixar-nos livres.
Bem, a essa altura você pode estar achando que me tornei herege. Não. Tornei-me ainda mais ortodoxo. O que ocorre é que interpretamos mal alguns textos bíblicos e daí passamos a viver uma fé manquitola. Alguns cristãos por acharem que textos como os de João que afirmam que “o que é nascido de Deus não peca” são verdades que podem ser aceitas sem contexto e literalmente estão vivendo uma vida espiritual hipócrita. São estes os que vivem sinceramente enganados. Precisamos ordenar as idéias.
Primeiro, está escrito que se alguém está em Cristo, as coisas velhas já passaram, isto é, seus antigos pecados já foram perdoados. Deus não se lembra mais deles.
Segundo, está escrito que tudo se fez novo, isto é, um novo jeito de viver, com novas e reais possibilidades foi inaugurado.
Terceiro, está escrito que o Espírito Santo agora é companhia constante e que à luz do seu amor podemos dizer não para os velhos hábitos da natureza caída sempre que o desejarmos.
Quarto, está escrito que a despeito da força da natureza caída somos capazes de nos tornarmos semelhantes àquele que nos salvou, pois foi plantada em nós a semente da vida.
Dessa forma tanto o “tudo se fez novo” de Paulo quanto o “não peca” de João, significam na verdade que como um barquinho levado pelas correntezas do mar, nos afastamos do pecado e de suas arestas, mas que ainda assim se não formos criteriosos, corremos o risco de nos chafurdarmos de novo nas areias movediças do pecado.
Resta-nos o bom conselho de Cristo: “vigiai e orai, para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca”, Mt 26:41.
Restam-nos as ações de graça por seu amor infinito e sua incansável e santa teimosia de nos querer para si mesmo.
É de Deus a força suprema que recebemos para viver de modo santo e agradável; é dele a porção diária que nos garante forças para conviver sem pecar apesar das muitas possibilidades que aí estão.

Excerto de "A metamorfose"

on sábado, 26 de julho de 2008


Quando certo manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto mosntruoso. (Cap. 1)
(...)
O grave ferimento de Gregor, que o fez sofrer mais de um mês - a maçã ficou alojada na carne como uma recordação visível, já que ninguém ousou removê-la -, parecia ter lembrado ao pai de Gregor, a despeito de sua atual figura triste e repulsiva, era um membro da família que não podia ser tratado como um inimigo, mas diante do qual o mandamento do dever familiar impunha engolir a repugnância e suportar, suportar e nada mais. (Cap. 3)

(Franz Kafka em "A metamorfose", pág. 7,59 - Cia das Letras)

Borbulhar de igualdade


Este deslocamento, que dá ao plebeu um nome "elegante", e um nome camponês ao aristocrata, nada mais é que um borbular de igualdade".

(Victor Hugo em "Os miseráveis - vl. 1, pág. 168 - Ed. Martin Claret)

Figuras Suspeitas


Essas pessoas pertenciam àquela classe bastarda, composta de gente grosseira que subiu na vida e de gente inteligente decaída, que está entre as chamadas classe média e classe inferior, e que combina alguns dos defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira, sem ter o generoso impulso do operário, nem a honesta ordem do burguês.
Eram dessas figuras anãs, que se tornam monstruosas se por acaso forem aquecidas por algum fogo sombrio. Havia na mulher um fundo tosco e no homem um estofo de velhaco. Amnbos eram extremamente suscetíveis àquele tipo de progresso abjeto que se faz no sentido do mal. Exsitem almas que, como os caranguejos, recuam continuamente para as trevas, retrocendendo mais do que avançando na vida, empregando a experiência para aumentar sua deformidade, piorando sem cessar, e impregnando-se mais e mais com uma crescente perversidade. Aquele homem e aquela mulher eram almas assim.
(...)
Basta olhar para certos homens e desconfiar deles, porque logo pode-se senti-los tenebrosos dos pés à cabeça. São ameaçadores na frente dos outros e medrosos por trás. Há neles algo de obscuro. Não se pode ter mais certeza em relação ao que fizeram do que em relação ao que farão. O sinistro que trazem no olhar os denuncia. Só de ouvi-los dizer uma palavra, ou vê-los fazer um gesto, já se entrevêem sombrios segredos em seu passado e sombrios mistérios em seu futuro.

(Victor Hugo em "Os Miseráveis - vl. 1", pág. 167 - Ed. Martin Claret)

A vida é...

on sábado, 5 de julho de 2008


A vida é...

"A vida é uma mesa posta, com venenos mortais, pratos insossos e outros deliciosos. Alguns conscientemente escolhem veneno, achando que viver é sofrer, e ponto final. Outros comem - e vivem - sem sal.
Mas há os que, quando podem, pegam as delícias da vida e assim se salvam da areia movediça da depressão".

(Lya Luft em "Pensar é transgredir", Ed. Record - pág. 46)

Pensar é transgredir.




"Quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente de tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára para pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para um absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é trasngredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

(...)

Pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar".


(Lya Luft em "Pensar é transgredir", Ed. Record - pág. 21-22)