As mariposas e o mistério da luz.

on sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


Numa fábula árabe, as mariposas queriam entender sobre a luz. Elas desejavam saber o segredo de se sentirem tão fascinadas pela chama de uma vela. O que as deslumbrava? Seria a luz ou o calor? Pediram a ajuda da mariposa-rainha. Depois de meditar sobre o assunto, ela aconselhou que cada uma, individualmente, procurasse encontrar a resposta. Todas saíram procurando desvendar o mistério do fogo.

Passado algum tempo, uma mariposa voltou cega de um olho, afirmando que havia chegado perto demais e que a luminosidade da vela a tinha ofuscado, e que continuava sem entender os mistérios da luz. Outra voltou com uma asa queimada, reconhecendo que sua experiência não fora satisfatória. Por séculos, as mariposas não entenderam por que a luz as extasiava tanto. Até que um dia uma voou na direção de uma lamparina com tanta determinação que morreu queimada. Nesse dia, a mariposa-rainha falou: "Somente esta mariposa conheceu o mistério do fogo, mas nós nunca saberemos".

Moral: O encontro com o transcendente não pode ser contido na dimensão empírica. Toda experiência é inédita, pessoal, intransferível e requer radicalidade.

(Extraído do livro "Sem perder a alma" - Ricardo Gondim - pág. 121 - MK Editora)

Lembrete aos pastores.

on sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Os pastores estão esquecendo do principal. Não fomos chamados para ter ministérios bem-sucedidos, mas para continuar o ministério de Jesus, que foi amigo dos pecadores e compassivo com os pobres, e identificou-se com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos escalões das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel a todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama. 

(Ricardo Gondim em "O que os evangélicos [não] falam", pág. 141 - Editora Ultimato)

A mensagem fundamental da religião.

on segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Acredito que a mensagem fundamental da religião não é a de que somos pecadores porque não somos perfeitos, mas a de que o desafio de ser humano é tão complexo, que Deus não perde tempo esperando de nós a perfeição. A religião vem para purificar-nos de nosso sentimento de desvalia e para assegurar-nos de que, quando tentamos ser bons, e não conseguimos ser tão bons quanto desejávamos ser, não perdemos o amor de Deus... A religião é a voz que diz: "eu vou guiá-lo através desse campo minado das difíceis escolhas morais, compartilhando com você a percepção e a experiência das grandes almas do passado, e vou lhe oferecer o conforto e o perdão quando você estiver perturbado pelas escolhas dolorosas que fez".

(Harold Kushner em "O quanto é preciso ser bom?" - pág. 7 e 26 - Exodus Editora)

Aconteceu de novo.

on sábado, 18 de dezembro de 2010

Weslei Odair Orlandi

         Aconteceu de novo. Janeiro chegou, o carnaval passou, a páscoa foi celebrada, o inverno assustou quem não gosta de frio, ricos foram enterrados, mineiros foram soterrados – e também desenterrados, mulheres foram violentadas, casas desabaram, aviões caíram, trens descarrilaram, carros se chocaram, crianças morreram em filas do SUS, velhos foram maltratados, políticos corruptos foram desmascarados, bancos prosperaram, empresas faliram, casais se apaixonaram, famílias se desintegraram, geleiras derreteram, debates dividiram a opinião da população, mentiras foram contadas, verdades foram ocultadas, morros foram invadidos, bandidos fugiram, policiais reagiram, jovens protestaram, torcidas se enfrentaram, Dilma venceu, Serra perdeu... Nada mudou...
         Enfim, 2010 – como todos os outros 2009 anos anteriores – veio cheio de alegrias, tristezas, realizações, frustrações, protelações, surpresas (algumas boas, outras nem tanto), repetições (algumas vãs, outras necessárias), doenças, idas e também vindas. Até aqui nada de novo. Apenas os ciclos se repetindo segundo a ordem natural da vida. Não deveria ser assim. Bom mesmo seria não termos nada de ruim para contar, nenhuma violência, nenhum óbito precoce, ninguém enfermo, ninguém desempregado, ninguém solitário. Mas não. Isso ainda é utópico. Impossível. O ano que se despede, como todos os demais que já se foram, não deixará saudades. Apenas lembranças.
         Mas tudo bem. Acontece sempre. A cada dúzia de meses nos congratulamos, nos abraçamos, fazemos votos e pedidos, desejamos sorte, trocamos presentes e então, sem muita empolgação, conformados, mas também resolutos começamos tudo de novo.
         Andei pensando sobre isso o que me levou à seguinte conclusão: 2010 como também todos os demais anos não passa de uma grande metáfora, o que segundo Milan Kundera não é qualquer coisa – “As metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora”. Mas tudo bem, não estou de brincadeira. Falo sério, consciente e, espero, acertadamente.
         Afinal, para que servem as metáforas?
         Metáforas são recursos de linguagem onde uma coisa é utilizada para comunicar outra mais profunda. Sendo assim, 2010 é então uma sugestão nada modesta do que vem pela frente, do tipo de comportamento que devemos ter, da esperteza que devemos gerir, da paciência que devemos nutrir.
         Nunca se pode saber aquilo que se deve querer, esperar, fazer, recusar ou abraçar, quando não há comparações possíveis. Não é o nosso caso. Há uma verificação possível. Nada será vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se já tivéssemos assistido a uma mesma peça teatral inúmeras vezes, inclusive os ensaios, erros e dificuldades dos atores, assim é que 2011 vai chegar. O que foi voltará a ser. O que é deixará de ser. Nada de novo se avultará; apenas de novo se repetirá.
         É assim que devemos desembarcar de 2010, embarcarmos em 2011 e prosseguir viagem. Sem grandes ilusões, sem grandes desilusões. O que aconteceu provavelmente será esquecido pela grande maioria. Ninguém, exceto os historiadores, se importará com a antiguidade. Os mais novos então, muito menos. Tudo bem. Isso também não é novidade.
Uma coisa, entretanto, se fará necessário é será esse o meu pedido: não percamos a alma, não nos tornemos alheios, não nos conformemos com a dor do estranho. Se os anos se repetem e são iguais, que sejam também iguais e se repitam a fé, a compaixão, a sensibilidade, o altruísmo, a abnegação, a decência e, principalmente, o amor.
Tudo passa. Tudo passará. Mas, o amor não! Não o deixem morrer.
    Que venha o ano novo. Que venha o que vier. Viva 2011 e viva também o amor!