Rosas, perfumes e espinhos.

on sexta-feira, 27 de março de 2009


Weslei Odair Orlandi


Tenho tido dificuldades para escolher uma única palavra que defina hoje o meio evangélico brasileiro. Concordo com Augustus Nicodemus quando ele afirma que “é mau sinal quando para nos identificarmos precisamos lançar mão de três ou quatro atributos”. É evidente que a crise teológica evangélica no Brasil é gigante. Cada vez mais pessoas procuram igrejas para se sentirem bem, para buscarem solução imediata para os seus problemas, sem sequer refletir nas questões mais profundas de sua existência e eternidade. Isto, de se aglomerar multidões sem a centralidade da cruz, não é vantagem alguma. Ao contrário, estamos diante da necessidade premente de que algo seja feito.
O quase-conformismo das igrejas históricas e pentecostais face ao liberalismo teológico e barateamento hermenêutico dos neopentecostais precisa ser repensado com urgência. Toda leniência será castigada. Para quem não está familiarizado com o termo, “neopentencostais” são aqueles que aderem à teologia da prosperidade e à batalha espiritual, que dão autoridade às novas revelações e optam por um modelo eclesiástico episcopal centrado nos auto-intitulados bispos e apóstolos.
Penso que estamos agindo como as árvores da parábola de Jotão. Talvez o vocábulo “resignação” capte bem o espírito das árvores sem rei. Recorde comigo a história contada no livro dos Juízes.
Era uma vez – e agora de novo – um reino cujos cidadãos eram árvores. Certo dia eles decidiram ungir um rei para si. Logo pensaram na Oliveira, árvore frondosa, saudável e muito respeitada. Feito, porém, o convite, a Oliveira disse não. Ocorreu-lhes então que a Figueira seria uma excelente alternativa. Porém ela também declinou do convite. Optaram então pela Videira. Com sua capacidade de produzir o mosto tão apreciado pelos homens talvez aceitasse a coroa. Oficializado o convite, a Videira tampouco aceitou a nobre função. Aflitas e impotentes as árvores não tinham mais escolhas. Foram até o Espinheiro. Convidado para a função real, ele viu ali sua galinha dos ovos de ouro. Seu reinado seria muito mais do que mera função administrativa. Rapidamente aceitou o cetro. É verdade que ele não tinha muito que oferecer. Ao contrário da Oliveira que produzia o requisitado azeite, da Figueira que com seus frutos saborosos e doces assanhava os paladares, e da Videira com seu vinho excelente, o Espinheiro nada produzia além de sombra. Era pegar ou largar. Pegaram. E anos depois o Espinheiro astuto cuspiu fogo sobre a ingênua floresta.
Esta seria uma parábola sem maiores implicações se não ilustrasse de maneira tão nítida a realidade evangélica atual. A igreja brasileira parece sim – por falta de profundidade teológica ou por escolha deliberada, não sei ao certo se sei – aceitar sem maiores dificuldades as sombras prósperas e acalentadoras do evangelho da prosperidade em detrimento do azeite, do figo e do vinho (refiro-me à ortodoxia e ortopraxia bíblica cristocêntrica). A situação está crítica – de propósito não quis dizer “caótica” – e não vejo saída fácil para essa crise. Vejo, contudo, uma alternativa possível e viável para ela. Não creio que precisamos trilhar caminhos tão radicais como alguns têm feito ao ponto de promover outro Deus e outra Igreja. Acredito, porém, que precisamos reagir. Jesus denunciou, protestou e atacou com veemência a religião farisaica de seus dias. Os apóstolos também não deixaram por menos: rechaçaram toda doutrina contrária ao evangelho que haviam recebido de Cristo.
Longe de sequer sugerir ataques pessoais ou confrontos físicos e violentos, apelo para um reposicionamento da teologia bíblica. Para ser igreja de Cristo não basta dizer que a Bíblia é a Palavra de Deus. A questão é como se interpreta essa Palavra. Assim, meu clamor é para que pastores e igrejas (oliveiras, figueiras e videiras) almejem ser ouvidos. Que aspirem com ardor o retorno do verdadeiro evangelho dos evangélicos. Só assim dispensar-se-á a necessidade de tantos adjetivos e explicações no que tange à nossa identificação.
Há, nas igrejas brasileiras, uma ênfase irresponsável nas rosas e seus perfumes. Não creio ser justo manter auditórios lotados na ignorância: toda roseira também tem seus espinhos. A verdadeira mensagem da cruz não suprime a espinha dorsal das Escrituras em detrimento de resultados quantitativos. A perspectiva cristã foi de certo modo invertida: querem trazer o céu para a terra. Que se registre o meu protesto: “pregadores de rosa deveriam pregar os espinhos também”.
Assim sendo, conclamo líderes e cristãos centrados e balizados pelo Evangelho da verdade que busquem seu lugar ao sol; que conquistem seu espaço nas rádios e televisões; que escrevam, que falem que tornem (re)conhecidas a interpretação bíblica consciente, coerente e equilibrada; que não comprem livros contaminados com tais doutrinas, que não assistam tais oradores. Quantas saudades tenho de ouvir sermões gerados a partir do binômio de Calvino “orare et labutare”, isto é, sermões gerados com oração e trabalho; unção e pesquisa; iluminação e interpretação hermenêutica responsável.
Se isto não ocorrer se tornará cada vez mais real o que certo pregador afirmou: “quando os bons não governam, os maus tomam o poder”.

Aconselhem-me, por favor.

on segunda-feira, 23 de março de 2009


Weslei Odair Orlandi


Dizem que se conselho fosse bom não seria dado, mas vendido. Discordo. Graças a Deus os conselhos não são vendidos (pelo menos não na maioria das vezes) e geralmente são bons. É fato posto que somos mais inclinados a aconselhar do que a receber conselhos. Talvez por falta de humildade ou até mesmo pela “humilhação” de sermos aconselhados, preferimos mais o papel de conselheiros. Aí está a origem das dores e ais. Quantos dissabores evitaríamos se simplesmente apreciássemos os conselhos que ouvimos e que, diga-se de passagem, não são poucos.
Os conselhos existem desde que o mundo é mundo e são úteis para quem deseja conhecer a sabedoria e a instrução; para quem deseja o entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; para dar aos simples prudência; aos jovens bom siso e para livrar a alma inadvertida da amarga ruína.
Recordo-me ao escrever sobre conselhos o quanto teria valido a pena Caim ter ouvido os conselhos de Deus no que dizia respeito ao seu irmão Abel. Mas não. Afoito, iracundo e dono de uma pseudo-liberdade, preferiu agir conforme sua consciência. O resultado da indiferença de Caim às admoestações divinas você já conhece. Assassino, maldito, fugitivo e errante na terra, Caim certamente lembrou-se muitas vezes do sábio aviso que a Voz Divina lhe ofereceu antes da barbárie ter sido cometida.
Não consigo esquecer-me também do quanto teria sido útil a Abraão ter levado em conta os conselhos de Deus quanto à necessidade do seu êxodo solitário. O Senhor Deus bem que o preveniu sobre não levar parentes com ele durante a peregrinação. O patriarca, contudo, preferiu ignorar a Voz Amiga e deu no que deu. Ló não só causou-lhe constrangimentos como todos nós, ainda que indiretamente, sofremos hoje as conseqüências da sua indiferença insana.
O livro de Deuteronômio encerra a biografia de Moisés afirmando que ele morreu aos cento e vinte anos de idade sem que seus olhos tivessem se escurecido ou que ele tivesse perdido o seu vigor. Mas, acreditem-me: este não teria sido o final da história se ele tivesse ignorado os conselhos de seu sogro Jetro – e ainda dizem que sogro bom é sogro morto.
Li em algum lugar que “um conselho ignorado, será sempre lembrado”. Nada mais verdadeiro. Precisamos ser aconselhados, sempre. Melhor, precisamos estar prontos para acatar os conselhos. Ouvi-los não basta. Entre ouvir e praticar há um caminho longo a ser percorrido.
Tenho dito aos jovens que, embora ainda inexperientes e afoitos, levam vantagens em muitos aspectos sobre aqueles que já chegaram aos limiares da vida. Primeiro, ainda não definiram totalmente suas vidas em termos de educação, trabalho e família, o que lhes dá a oportunidade de agirem com cautela e sabedoria. Segundo, a vitalidade e a saúde ainda não foram violadas, o que lhes dá condições para lutar, sonhar, planejar e executar projetos. Terceiro, o tempo que viveram ainda é inferior ao tempo que viverão, o que lhes dá tranqüilidade para agirem sem atropelos. Quarto, por serem ainda jovens são, na maioria das vezes, alvo da compreensão e compaixão dos mais velhos, o que lhes dá uma segunda chance para recomeçarem de novo. Porém, é bom que se saiba que na medida em que os anos passam os caminhos se estreitam, o cimento endurece, a quantidade de “ontens” fica maior que a de “amanhãs”. As cobranças se tornam mais implacáveis e os deslizes mais calamitosos. Eis aí, algumas razões porque acredito cegamente que deveriam valorizar mais os conselhos dados pelos mais velhos.
Eu se começasse minha vida de novo, prestaria mais atenção às advertências que ouvi. Por ignorância, insensatez e falta de jeito, desprezei-as muitas vezes. Resultado: os conselhos que não quis ouvir dos lábios de quem me amava, ouvi-os da vida que, a propósito, só abre a boca para falar tarde demais. Assim, hoje, embora o tempo não possa ser rebobinado apresso-me não só a ouvir o que têm a me dizer aqueles que querem o meu bem, como eu mesmo vou ao encalço deles ávido por uma palavra de ponderação e direcionamento.
Sei que muitos continuarão acreditando na falácia do provérbio que citei ao início. Muitos continuarão ignorando que a sabedoria mora com os “idosos” – não necessariamente com os de idade avançada apenas, mas também com aqueles que já palmilharam um pouco mais a estrada poeirenta da vida – e, assim, seguindo seus próprios faros e instintos continuarão a violar preceitos simples da vida e a cometerem desatinos. Eu, porém, como já dei topadas que poderiam muito bem ter sido evitadas, que já fui envergonhado, repreendido e frustrado vezes suficientes para não querer mais vender meus direitos, hoje, grito aos quatro ventos: “Aconselhem-me, por favor”.

Fé contaminada.


O cristianismo não é e nunca foi um esquema de enriquecimento voraz.

É preciso fazer uma advertência. Rejeite qualquer ensinamento que até mesmo sugira que riqueza material, saúde física ou circunstâncias favoráveis têm alguma coisa que ver com a quantidade de fé que você possui ou com o fato de Deus estar contente com você. Cuidado com aqueles que ensinam que doações financeiras vão liberar a infindável abundância das bênçãos de Deus. São falsos pastores que vão roubar seu dinheiro e destruir seu relacionamento com Deus. A "fé" que eles proclamam é uma fé contaminada.


Charles Swindoll em "Jesus - o maior de todos", pág. 91 - Ed. Mundo Cristão.

O deus que não é Deus.

on segunda-feira, 16 de março de 2009



Ricardo Gondim




Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Essse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável. Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência. Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.
Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.



Soli Deo Gloria.
(Fonte: www.ricardogondim.com.br)

Sodré.

on sábado, 14 de março de 2009



Weslei Odair Orlandi


O sol já perdia sua força e ao longe se podia ouvir a cantiga de uma mãe que, feliz embalava em seus braços os sonhos de uma criança recém nascida naquela casa. O dia parecia não ter pressa de dar seu último adeus nem de deixar a noite refestelar-se na imensidão do céu paranaense. Já se fora o casal de pardal que com sua cantilena enchera de graça a tarde anuviada. Agora, absorto em seus pensamentos, Sodré não percebia nem mesmo seu resfolegar. Jorgina já tomara seu banho e não deixara de lado seu bordado desde a hora em que os netos barulhentos e indiferentes ao avô haviam ido jogar bola no outro lado da rua.
O lusco-fusco daquele dia seria melancólico e sereno, não fossem os pensamentos de Sodré. Ali, parado, sentado, calado, cabisbaixo e introspectivo, Sodré lembrava-se triste dos seus dias de saúde e vigor. Fora um homem de valor; nunca deixara de trabalhar um só dia, sempre de sol a sol. Lembrava-se dos seus dias de glória quando junto de seus primos costumava antecipar-se à alva do dia para pegar no batente. Às quatro da manhã estavam de pé, com a marmita na mão, as ferramentas prontas e as botinas nos pés. Nunca fora muito dedicado aos estudos. Dona Senira, a comadre de sua mãe é que andara lá pelas bandas do Rio Anta ensinando o abecedário para a gurizada da colônia. Logo que aprendeu ler aos tropeços e a escrever alguns garranchos o pai dissera que “minino homi tem é que pegá no batente”. Nunca mais colocou seus pés numa sala de aula. Também nunca se importara com isto mesmo. O que sabia a vida lhe ensinara.
Ainda moço deixou a roça e foi tentar a vida na cidade. Os primeiros anos não foram fáceis; ainda mais com os militares na rua pressionando todo mundo. Passara um medo danado, quase foi preso um dia. Não fosse um colega seu ter falado em favor dele e ter convencido o soldado e teria dormido na cadeia aquele dia. Deu um duro para não ter de voltar para a vida que deixara.. “Aquilo não é vida e pra lá eu não volto. Ainda que eu tenha de morar debaixo da ponte, daqui eu não arredo pé”, dizia para Jorgina, a faxineira que conhecera logo que descera do ônibus numa tarde quente de um verão saudoso e que, meses depois veio juntar os trapos com ele. Agora, anos depois, pai de três filhos já casados, comprara um terreno, construíra um barraco, simples, mas seu, e até conseguira comprar um Voyage verde. De um ex-colega de serviço. Havia conseguido aposentar-se na empreiteira que o contratara dois anos depois de deixar a roça. Estava feliz. Era hora de viver um pouco mais tranqüilo.
Já estava curtindo sua aposentadoria há uns quarenta dias, quando sentiu uma dor forte no peito, um formigamento no braço e dores forte de cabeça. Seu Inácio, o vizinho da esquerda o levou correndo para o hospital, mas o médico disse que não tinha mais jeito. O caso era sério. Fora acometido por um derrame certeiro. Ficou no hospital uma semana e ao voltar para casa, não podia andar, não conseguia falar; só conseguia mexer um braço, e com dificuldade. Tanto trabalho, tanto esforço e agora que parecia ter chegado a hora de descansar, estava ali, preso naquela cadeira. Sentado na verdade, mas cansado. Queria mesmo é poder andar, jogar conversa fora nos bancos da praça, com os velhos amigos de fim de semana. Mas não, tudo que precisava era a Jorgina que trazia e colocava na sua boca.
Não foram fáceis os primeiros dias de cadeirante; aqueles de quando chegara pela primeira vez na cidade grande nem podiam mais ser contados como difíceis. Porém, agora já se resignara. Fazer o quê. A vida é assim. Enquanto uns que são maus vivem tranqüilos, outros que são bons e honestos acabam seus dias numa cadeira, vendo o sol dar adeus, os pardais cantarem sem ficar roucos, as crianças dormirem felizes no colo da mãe e a mulher ficar lá dentro, sem assunto, bordando, cantarolando e pensando sabe-se lá o que. Como dizia seu avô: “vida boa, só quem teve foi o jeca, que de tanta preguiça, acabou se tornando história do país”.

De quem é a culpa afinal?


Weslei Odair Orlandi


Quero chamar sua atenção para recomendar-lhe uma reflexão. Creio que um pouco mais de realidade sobre a consciência missionária que nos é tão cara, nunca é demais. Espero que depois de ler as linhas abaixo você possa envolver-se mais na busca de alcançar os não alcançados. Meu objetivo não é dar-lhe um pouco mais de informação transcultural, mas despertar em você o desejo de empreender uma conquista cada vez maior em amor e penetração do Reino de Deus entre aqueles que ainda não tiveram o privilégio de conhecer o verdadeiro Salvador e Senhor. Então, sem pressa, e com muita atenção, procure descobrir, qual é o seu papel nos desafios missionários e de quem, afinal, é a culpa de tantos se perderem diariamente sem Cristo.
Então, vamos à reflexão e boa leitura!
“Esta é uma história de quatro personagens: “alguém”, “ninguém”, “todo mundo” e “qualquer um”. Havia um trabalho missionário muito importante a ser realizado: “qualquer um” poderia tê-lo feito, mas “todo mundo” achou que “alguém” o faria; “ninguém” o fez. “Alguém” ficou aborrecido por “ninguém” ter feito o que era para “todo mundo” fazer. Resultado: “todo mundo” culpou “alguém” porque “ninguém” fez o que “qualquer um” poderia ter feito. De quem é a culpa afinal?” (Capacitando para missões transculturais – n. 01/1996, pág. 71).

Jó não lia o livro de Jó.

on quarta-feira, 11 de março de 2009



Weslei Odair Orlandi



Para qualquer leitor atencioso ou não do livro de Jó, o texto bíblico já chega mostrando o lado invisível de todo o drama vivido pelo personagem principal da narrativa. Jó, o homem sincero, reto, temente a Deus e que se desviava do mal é apresentado a todos como aquele que se viu disputado por forças espirituais nas regiões celestiais e é a partir dessa informação que lemos o restante da história. Jó, porém, nunca leu o livro de Jó. Ele não sabia nada do que sabemos. Ignorante sobre a batalha travada entre Deus e satanás sabia apenas quem uma avalanche sem precedentes de ruína e enfermidade se instalara em sua casa. Sua percepção dos fatos era apenas horizontal.
Sem que ninguém o avisasse de antemão, satanás compareceu certo dia à presença de Deus e demandou a vida do homem mais rico do Oriente em provações. Sabedor de seus males e perdas, rasgou suas vestes, rapou a cabeça, lançou-se em terra e adorou ao Criador: “Nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” Em tudo isso Moisés, o provável escritor do livro de Jó, afirma que ele não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
Tenho afirmado que nós leitores modernos da Bíblia Sagrada perdemos muito da emoção vivida pelos personagens bíblicos ao sabermos de antemão tudo o que vai ocorrer ao longo de suas histórias. Eles, porém, ao viverem os momentos que nos são relatados hoje pelo texto das Escrituras, nada sabiam do que nós sabemos. Eles nunca leram a história, pois eram, eles próprios, a história.
Ao ser atingido pela “bomba” satânica Jó não teve tempo sequer para estender as mãos ao alto e pedir socorro. Em um só dia a seqüência de tragédias (assaltos dos sabeus e caldeus) e acidentes naturais (fogo do céu e vento forte) dizimou seus animais, seus servos e todos os seus sete filhos. Nada restou, senão três mensageiros e uma esposa desequilibrada.
Hoje em dia, certamente não faltariam também os diagnosticadores do sofrimento alheio que a exemplo de Elifaz, Bildade e Zofar viriam tornar a dor aguda em dor lancinante. Normalmente é assim. Quando o mal se abate sobre alguém, logo os “entendidos” em assuntos não explicáveis saem de seu anonimato para, com o dedo em riste, justificar a calamidade. Esses são os amigos de Jó, plantonistas não autorizados em nome de Deus para assuntos da vida alheia.
A tragédia de Jó, apesar de estar separada de nossos dias por milhares de anos, continua sendo recontada hoje nos muitos cristãos piedosos que diariamente são marcados pela assolação e agonia. Há, contudo, algo pior do que a dor da perda; é a dor da impossibilidade de se provar a inocência. Os amigos de Jó também nunca leram o livro de Jó. Eles viam apenas o cenário de desolação imediata. Eles nada sabiam sobre as sutilezas e atrocidades de satanás. Para eles, portanto, havia uma única razão para tal desgraça: Jó pecara de alguma forma ainda que imperceptível contra o Todo-Poderoso. Nenhuma outra explicação poderia ser plausível senão a adversidade como resultado do pecado. Eu sei, você sabe, nós sabemos: nada disso ocorrera de fato. Jó era homem íntegro e nada fizera que o tornasse merecedor de tal situação.
Penso que temos cometido muitas injustiças em nome de nosso pseudo-discernimento. É mais fácil eleger o deslize moral como explicação para todas as coisas do que ficar calado ou procurar conclusões menos simplistas. Sou da opinião de que se os amigos de Jó tivessem continuado calados depois dos sete primeiros dias de silêncio teriam feito menos mal ao pobre homem coberto por chagas malignas.
Nossas idéias preconcebidas podem ser mais perniciosas do que jamais imaginamos. Deveríamos ser capazes de manter a isenção que se requer diante de um quadro de lágrimas, perdas e frustrações. Entretanto somos afoitos demais para cultivar a discrição. Preferimos agir em nome da moral religiosa e da crença de que somos os eleitos do Senhor para identificar pecados não confessos. Assim, sem reflexão piedosa e donos de uma cínica hipocrisia camuflada de espiritualidade à flor da pele, disparamos contra tudo e todos. Denunciamos, acusamos, julgamos, sentenciamos e condenamos. Sem levar em conta que as coisas ocultas pertencem a Deus sujeitamos toda dor ao juízo divino e isso sem contar que Deus mesmo estava bradando sobre seu servo Jó: “Ninguém há na terra semelhante a ele...!”.
Abdiquemo-nos da sede cruel de interpretação rápida e solução implacável. Que nenhum de nós falte às aulas da graça, misericórdia e compaixão. Que nenhum de nós seja reprovado na arte de ouvir mais e falar menos.
Talvez não seja tardio lembrarmo-nos do que dizia Shakespeare: “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.


Assim não há pastor que aguente.

on quarta-feira, 4 de março de 2009


Ninguém consegue passar trê dias realizando toda a exegese possível do texto "estou crucificado com Cristo", depois passar metade da noite de sexta-feira acordado em um retiro de jovens escutando o rock de que eles gostam, participar de uma reunião no sábado com os diáconos, tentando decidir a cota orçamentária para os serviços de zeladoria e, por fim, subir ao púlpito, no domingo, como um pastor radical.


(Eugene Peterson em "O pastor desnecessário", pág. 8 - Ed. Textus)

Conteúdos da religião moderna.


Weslei Odair Orlandi



Eugene Peterson em seu livro "O pastor desnecessário" avalia com isenção as entranhas da religião moderna trazendo um diagnóstico claro, preciso e contundente sobre sua atual situação. Sintetizei algumas das suas conclusões e decidi compartilhá-las com todos quantos desejam se safar desse triste espetáculo sem vida.







A religião moderna, dominada pela cultura:







1. Se tornou uma grande teóloga, mas não se importa nem um pouco com Deus;



2. Serve aos interesses das pessoas nos termos delas;



3. Procura atender aos desejos de satisfação do público que a compõe;



4. Procura atender a fome de encontrar um significado, a sede de beleza, a importância e a impaciência frente a Deus, que exige entrega total;



5. Mistura histórias, superstições, desejos e relações públicas que atendam às necessidades religiosas das pessoas;



6. Evoca o que há de melhor nas pessoas - mas o melhor do que elas querem para si mesmas, e não o que Deus quer para elas;



7. Oferece o que é bom, sem se preocupar com a moralidade;



8. Oferece transcendência sem Deus;



9. Em vez de cristocêntrica, dissipa-se em sentimentos exaltados, combinações de ideias, grupos de discussões e reuniões interessantes;



9. Seu conteúdo é moldado pela cultura e não pela cruz de Cristo.







Em suma: a igreja moderna absorveu em grande parte as aspirações do secularismo e, através dos seus poros, incorporou uma religião sem compromisso, espiritualidade sem conteúdo, aspiração, conversa, desejo, satisfação necessidade. Mas, nada disso inclui grandes preocupações com Deus.











Eugene Peterson é hoje um dos autores mais lidos e recomendados entre pastores e cristãos em geral. Sua habilidade com as palvras, sua firmeza doutrinária e sua clareza de ideias não devem ser desprezadas. Por isso: leia, desse autor, tudo que for possível.





(Eugene Peterson em "O pastor desncessário" - Ed. Textus)