Ovelhas e ovelhas

on sexta-feira, 7 de março de 2008


Weslei Odair Orlandi

Tomo a liberdade de parafrasear o escritor Ed René Kivitiz para dizer que há além de pastores e pastores também ovelhas e ovelhas. Não é difícil perceber isso. Basta olhar um pouco à nossa volta para chegar-se à conclusão de que existem, pelo menos, dois tipos de ovelhas no aprisco.
O primeiro tipo chamo de “ovelha-lobo”. São ovelhas corrompidas. Algumas conscientemente, outras sinceramente enganadas. São corrompidas no entendimento da Palavra. Utilizam a fé para alcançar seus objetivos egoístas, servir seus próprios interesses. Para elas Cristo é apenas um detalhe e sua mensagem um obstáculo incômodo. Vivem entre seus irmãos de fé, mas não têm sentimentos próprios de uma ovelha. No papel que representam junto aos demais conseguem enganar os menos esclarecidos. Fingem amar a Deus, mas negam-no com suas ações. Estão sempre aprendendo, mas jamais conseguem chegar ao conhecimento da verdade. Não irão longe, porém; por resistirem à verdade e à transformação que deveriam experimentar, as suas mentiras se tornarão evidentes a todos e muito especialmente no último dia, quando Jesus, o Supremo Pastor, chamar para si aqueles que lhe pertencem. Não é difícil identificar uma “ovelha-lobo”. Elas quase nunca dão ouvidos à voz do Bom Pastor, quase nunca sentem desejo de orar, evangelizar, santificar a vida, envolver-se nas causas do Reino de Deus. Enfim, nunca foram regeneradas pelo Espírito, isto é, o Espírito nunca as transformou em novas pessoas.
O segundo tipo chamo de “ovelha-ovelha”. Aquelas são lobos vestidos de ovelhas. Estas são iluminadas. Rompem a linha que nivela os mortais. São resolvidas em sua alma. Vivem no patamar que a Bíblia chama de “vida no Espírito”. Apesar das contradições e angústias da vida, Deus sabe que elas o amam e que entusiástica e conscientemente repetiriam as palavras de Dostoievski: “Caso me dissessem que Cristo não é verdade, eu diria: ‘Vai-te, verdade, pois tudo o que quero é Cristo’”. As ovelhas-ovelha são compreendidas por Deus mais do que por elas mesmas. Deus as ama de um jeito diferente pois elas o conhecem e quando um estranho aparece nunca o seguem; na verdade, fogem dele, porque não reconhecem a voz de estranhos, Jo 10:5.
Ovelhas assim nos fazem perceber a tolice de viver enganosamente. A sensação que passam é a de que Deus conta tudo para elas. São bem-aventuradas porque jamais deixam o verdadeiro caminho. Não se sentiriam confortáveis...
Ah, sim. Antes de pôr um ponto final, permita-me perguntar-lhe: “você é uma ovelha-ovelha, não é”?

Porque não paro de ler

on domingo, 2 de março de 2008


Weslei Odair Orlandi


Segundo André Perissé “ler é bom demais. Ler é ótimo. Ler é mais do que necessário. Enriquecedor. Imprescindível”. Por isso eu leio. Por isso eu não paro de ler.
As minhas primeiras lembranças sobre livros que manuseei remontam aos meus dias de analfabetismo. Eu ainda era um incauto absoluto na arte das letras quando já me sentia dominado por uma paixão avassaladora por elas. Costumava brincar com um caderno e uma caneta, rabiscando páginas e páginas. Depois que aprendi ler e escrever, comecei usar uma placa de ferro utilizada pelo governo para anunciar suas obras para escrever com pequenos torrões encontrados no quintal da minha casa e também a escrever no ar. Aluno assíduo da escola bíblica, sempre li a Bíblia e outros livros infantis. Quando inauguraram a biblioteca pública da minha cidade, tornei-me um verdadeiro “rato”. Costumava passar horas e horas lendo. Lia tudo, desde literatura infantil até os clássicos, passando também pelas biografias, teses, poesias e livros educacionais. Aos dezessete anos, já havia lido mais de trezentos volumes daquela instituição. Hoje, já perdi as contas.
Costumo encarar cada parágrafo que leio como uma conquista na escada do saber. Cada palavra, cada oração, cada pensamento, tudo é informação, prazer, conhecimento; tudo é tesouro que não se pode perder.
Leio por necessidade. Leio por prazer. Leio para aprender. Leio para desaprender. Leio para reaprender. Leio para descobrir que sei. Leio para descobrir que nada sei.
Já fiz muitas viagens ao redor do mundo. Já fui à Lua, a Marte e até aos mundos ainda não descobertos. Já fui ao centro da terra. Já enfrentei desertos ferozes. Já sobrevivi em mares atrozes. Já conheci muitos amores. Já lidei com gente feroz e com bicho feroz. Já fui ao passado, já retornei do futuro. Já fui ao infinito, já perscrutei o finito. Já estive com os pobres, com os famintos, mas também já me encontrei com reis, rainhas, príncipes e princesas. Já dormi ao relento, já comi pão bolorento, já comi caviar. Já estive com Deus. Já andei de carruagem. Já fui e já voltei, muitas vezes, de muitos jeitos; e o melhor de tudo é que nunca tive de tirar passaporte, nunca gastei meu dinheiro. Foi tudo de graça; foi tudo uma graça.
Outro dia fui até o museu de Louvres; acabei assistindo um crime bárbaro; tudo em nome da crença ou descrença de que Jesus foi marido de Maria Madalena. Por sorte consegui reunir provas a favor da minha fé. Foi um tremendo sufoco, não fosse a habilidade que já consegui de discernir que papel aceita tudo. Neste momento estou ajudando Neemias reconstruir os muros de Jerusalém e a desvendar os segredos de uma liderança eficiente. A obra ainda não foi concluída, mas já deu para perceber que só se pode liderar quando é capaz de influenciar.
Quem lê sabe mais, inclusive sabe que quanto mais sabe menos sabe ainda. Por isso não paro de ler. Cada livro que leio gera em mim a certeza de que quase não avancei, de quase não cresci, de que quase não amadureci.
E é assim que pretendo seguir: um livro aqui, um conhecimento acolá. Um livro aqui, uma descoberta ali.
Por isso não paro de ler. Quanto mais leio, mais pequeno fico. Quanto mais pequeno fico, mais carente me torno.
Outro dia um amigo meu disse que sou compulsivo. Eu respondi: “compulsivo eu não sou; eu sou é consciente”. Por isso eu não paro de ler.