QUE ÊXODO É ESTE?

on terça-feira, 17 de janeiro de 2012





Weslei Odair Orlandi

Datilografei – isso mesmo! – as linhas abaixo em 15 de dezembro de 1999. Perdidas desde então as achei hoje revirando o baú e resolvi digitá-las – evolui, não? – sem acréscimos respeitando meu viés de outrora. Poderia fazer acréscimos, mas não, deixa como está. Que se saiba, entretanto, que continuo acreditando no que escrevi.

            Para muitos que lerem este artigo a ideia de que quantidade não serve como referência para a qualidade pode parecer absurda. Talvez você já tenha ouvido muitos falarem de “qualidade total” na empresa onde trabalha, mas nunca imaginou que o Reino de Deus também a requer. A experiência, contudo, revela que uma grande maioria das igrejas contemporâneas preocupa-se com quantidade, mas não com qualidade.
            Em primeiro lugar gostaria de refletir sobre a minúscula presença da igreja junto ao discipulado dos novos convertidos. Ao observarmos muitos ministros evangélicos começamos indagar sobre qual a real intenção deles ao saírem no encalço das almas perdidas. O crescimento acelerado da igreja hoje se constitui num perigoso problema para a pureza [reais intenções] do “ide” de Jesus. A realidade disso está estampada no descaso da igreja geradora de ovelhas. O que ocorre é que a falta de lastro teológico dentro das igrejas só lhes dá o direito de usufruir da quantidade, mas nunca da qualidade cristã proposta na Palavra de Deus. Examinando as estatísticas provenientes da análise do acréscimo e decréscimo das igrejas, concluímos que o pecado está mais forte e enraizado do que nunca e que a assistência aos novos convertidos, que é o trabalho por meio do qual o novo crente se firma na fé, está cada vez sendo menos praticada. Creio que a urgência de reavivarmos o “Sola Scriptura” dentro das igrejas seja tão urgente que não podemos mais, nem por um segundo, ser complacentes com tão ínfimos resultados na obra da evangelização.
            Os textos que você lerá a seguir comprovam a mensagem de Jesus de que amar o próximo não consiste em sorrir e dar-lhe boas vindas à porta do templo deixando-o logo depois à mercê da sua boa ou má vontade, mas que é também, e principalmente, edificá-lo na fé por meio do discipulado.
            “Portanto, ide, ENSINAI todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ENSINANDO-as a GUARDAR todas as coisas que vos tenho ordenado”, Mateus 28. 19-20.
            “a quem ANUNCIAMOS, ADMOESTANDO a todos os homens e ENSINANDO a todo homem em TODA SABEDORIA; para que apresentemos todo homem perfeito em Jesus Cristo; para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo e eficácia que opera eficientemente em mim”, Colossenses 1.28-29.
            “E tendo ANUNCIADO o evangelho naquela cidade e feito muitos DISCÍPULOS, voltaram para Listra, e Icônio e Antioquia, confirmando o ânimo dos discípulos, EXORTANDO-OS a permanecer na fé, pois por muitas tribulações importa entrar no Reino de Deus”, Atos 14.21-22.
            Em suma, no que tange ao decréscimo estatístico da igreja – hoje já se fala em “evangélicos não praticantes” e “ex-evangélicos” com uma não pouca freqüência – observamos que a carência não está na dificuldade de se realizar um trabalho dinâmico ou de se obter substanciosos resultados iniciais; a carência hoje está, antes, na preocupação de se conquistar, não “frutos que permaneçam”, mas sim “frutos que causem volume na cesta”; ainda que para apodrecerem tão logo sejam colhidos.
            Em segundo lugar quero observar que o mal atinge não apenas as massas recém manipuladas, mas que também grassa entre os que chegaram mais cedo. A vulnerabilidade é endêmica e contagia mesmo os que pelo tempo de vida já deveriam estar imunes. Admiro sempre que leio a perseverança visceral dos crentes primitivos que, conforme observa Justo Gonzales, “descansando na graça de Cristo tinham em pouca conta as dores do mundo”. A superficialidade teológica da igreja hodierna afasta-nos para longe disso e tem contribuído invariavelmente para que o engano de satanás prostre com facilidade os chamados “crentes maduros”. É estarrecedor saber que no seio da igreja a ausência de profundidade vai mais longe do que o mínimo tolerável. Nossos crentes precisam com urgência de proteção contra os ventos doutrinários – e também das brisas – que tão facilmente têm levado à bancarrota inúmeras igrejas com seus róis avantajados. O potencial de transformação dentro do meio evangélico está deficitário. Estamos num momento crítico onde observar o êxodo dos crentes desnorteados de uma igreja para outra – ou para igreja nenhuma – é mais cômodo do que agirmos com firmeza, abrangência e persistência em prol da conscientização que possibilite o aumento estatístico com grandeza qualitativa.
            Um problema assim, com surgimentos diários de padrões de comportamentos anômalos entre os novos e os nem tão novos assim, insisto, só pode ter uma única e inequívoca razão: não tem havido orientação bíblica e teológica perseverante, sistemática e responsável. Isso é o que, somado a outros fatores periféricos, fomenta a superficialidade banal que preserva pecados e chancela abandonos desnecessários. Se ao invés dos números nos preocupássemos com a pessoa do recém convertido e o ajudássemos a se despir do velho homem para revestir-se do novo; se ao invés dos relatórios de final de ano nos concentrássemos em despertar nos “irmãos mais velhos” um espírito de camaradagem e compromisso; se ao invés de cifras nos ocupássemos com a alma ferida dos fieis, certamente as treliças de amor e perfeição seriam menos quebradiças permitindo um trânsito verdadeiramente seguro com começo, meio e fim.
            Já perdemos muito, mas ainda não é tarde demais. Ainda dá tempo de percebermos a importância de fazermos e consolidarmos discípulos como parte essencial e prioritária do ministério. Está ao nosso alcance estimular a estruturação bíblico-teológica consciente e pura em nossos fieis. Seja este o principal objetivo das igrejas evangelísticas. No sentido exato do conceito bíblico o que se espera de nós é única e exclusivamente o cumprimento da grande comissão: ir e fazer discípulos, sem pressa, não com esta quantidade superficial, mas com aquela qualidade profunda, inamovível e saudável dos verdadeiros seguidores de Cristo.