Figuras Suspeitas

on sábado, 26 de julho de 2008


Essas pessoas pertenciam àquela classe bastarda, composta de gente grosseira que subiu na vida e de gente inteligente decaída, que está entre as chamadas classe média e classe inferior, e que combina alguns dos defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira, sem ter o generoso impulso do operário, nem a honesta ordem do burguês.
Eram dessas figuras anãs, que se tornam monstruosas se por acaso forem aquecidas por algum fogo sombrio. Havia na mulher um fundo tosco e no homem um estofo de velhaco. Amnbos eram extremamente suscetíveis àquele tipo de progresso abjeto que se faz no sentido do mal. Exsitem almas que, como os caranguejos, recuam continuamente para as trevas, retrocendendo mais do que avançando na vida, empregando a experiência para aumentar sua deformidade, piorando sem cessar, e impregnando-se mais e mais com uma crescente perversidade. Aquele homem e aquela mulher eram almas assim.
(...)
Basta olhar para certos homens e desconfiar deles, porque logo pode-se senti-los tenebrosos dos pés à cabeça. São ameaçadores na frente dos outros e medrosos por trás. Há neles algo de obscuro. Não se pode ter mais certeza em relação ao que fizeram do que em relação ao que farão. O sinistro que trazem no olhar os denuncia. Só de ouvi-los dizer uma palavra, ou vê-los fazer um gesto, já se entrevêem sombrios segredos em seu passado e sombrios mistérios em seu futuro.

(Victor Hugo em "Os Miseráveis - vl. 1", pág. 167 - Ed. Martin Claret)