Depois que reli o Evangelho de João

on quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009


Weslei Odair Orlandi



Por várias razões os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João fazem parte do cânon do Novo Testamento. David Alan Black no livro “Por que 4 evangelhos?” resume os propósitos centrais porque foram escritos. Segundo ele “Mateus é produto de uma das primeiras determinações da igreja para preservar os ensinamentos de seu fundador e para justificar sua separação de Israel. Por sua vez, o evangelho de Lucas é o produto da crise causada pelo surgimento das igrejas gentílicas ao lado da igreja dos judeus”. Quanto a Marcos e João ele afirma: “foi a necessidade vital de fundir as duas tradições (igreja de Jerusalém e igreja gentílica) em uma unidade inseparável que levou à composição do evangelho de Marcos (...) João suplementa os relatos anteriores ao fornecer informação não acessível a eles”. Essa é uma análise rápida e obviamente não engloba outros objetivos igualmente importantes. Porém, a sua informação de que João suplementa os relatos anteriores é bastante interessante e é nessa “adição joanina” que eu gostaria de convidá-los a pensar um pouquinho a partir de agora.
João, o continuador da obra predita pelo outro João, o Batista, e inaugurada pelo Mestre, foi meticuloso nas escolhas que fez ao narrar os fatos testemunhados por ele e seus demais companheiros durante os anos que passaram com Jesus. É sabido de todos que ele não relatou cada um dos acontecimentos que viu. Se assim fosse seu evangelho não teria apenas vinte e um capítulos. Leia depois o que ele mesmo escreveu sobre isso no último versículo do seu livro. Assim, fica patente a todo leitor atencioso das Escrituras que cada situação narrada foi propositalmente escolhida.
João não escreveu o quarto evangelho para simplesmente nos fazer lembrar o que Cristo fez, mas para nos fazer saber que Ele é o filho de Deus, para que creiamos nEle e para que saibamos que Ele tem poder para alcançar vitória sobre todas as dimensões da nossa vida.
Pense comigo. Em Jo 2:1-11 temos o primeiro milagre de Jesus – uma demonstração contundente do seu poder sobre a qualidade. A superioridade do vinho apresentado pelos serviçais ao mestre-sala era simplesmente inigualável. Em Jo 4:43-54 temos a cura do filho de um oficial do rei, um milagre feito à distância para nos lembrar que ele desfaz sem dificuldades a lógica do espaço.
Em Jo 5:1-9 é a vez do paralítico de Betesda experimentar o poder curador de Jesus. Nesse episódio temos dois fatos dignos de nota: primeiro Jesus desmonta com esse milagre a lógica do merecimento, pois uma vez que para ser curado era necessário entrar primeiro no tanque segundo a crendice popular e Jesus o curou ali mesmo onde estava sem fazer esforço algum fica então evidente os sinais da sua graça em ação; segundo, o paralítico estava à espera de sua cura havia trinta e oito anos, o que Jesus em questão de segundos resolveu para ele provando quem ainda é (e sempre será) o Senhor dos tempos e das horas.
A seqüência da narrativa continua cheia de surpresas agradáveis e a seguir temos em Jo 6:1-13 a multiplicação dos pães e dos peixes numa prova irrefutável de que seu poder também diz respeito às leis da quantidade. Nos versículos 16 a 21 do mesmo capítulo seis é a vez de se registrar o seu poder sobre as leis da natureza quando andou sobre o mar e no capítulo 9 a sina de um cego de nascença é transformada estabelecendo-se assim o poder de Jesus sobre os destinos da humanidade. Finalmente em Jo 11:1-45 Lázaro é ressuscitado depois de quatro dias no túmulo e o Mestre chancela aí o seu poder sobre a morte.
Está claro, portanto, que os milagres narrados por João foram realmente propositais. Essas diferentes dimensões da vida postas sob o poder de Cristo nesses acontecimentos miraculosos foram destacadas para que ao olharmos para o Filho de Deus não duvidássemos de sua versatilidade, poder e imprescindibilidade. Ele fez por aquelas pessoas o que também está pronto para fazer em favor de cada um dos homens atualmente.
Onde a tristeza estiver presente e a vida caótica, Jesus quer ser o causador de uma revolução em prol da qualidade de vida. É só fazer o que ele manda. Onde as distâncias forem grandes demais e os objetivos inatingíveis Ele se propõe a ser o encurtador de caminhos. Onde a corrida for contra o tempo e a auto-estima estiver escassa Ele quer se estabelecer como aquele que vê e alcança os marginalizados. Onde as leis naturais se impuserem como inimigas do homem, onde os destinos parerecem inexoráveis, onde a morte surgir como a última palavra, onde, onde, onde... Bem, não importa onde, mas apenas quem. Quem precisa e quem ajuda: você, eu, nós, Ele.
Creio que João nos deu elementos suficientes para perceber que a missão maior de Cristo entre os homens foi a de trazer salvação a todos. Ele não veio para que os pobres nunca mais sejam pobres. Que os doentes nunca mais sejam doentes. Que os velhos deixem de ser velhos. Não. Exteriormente tudo pode até parecer como dantes. A verdade, porém, é que a presença de Jesus será sempre a responsável por mudanças emocionais, espirituais e de reestruturação social, histórica e pessoal onde quer que ela se faça necessária.
Conforme descrito por João, quando Jesus chega, vê, fala, toca, anda e sente todas as coisas se transfiguram, porque o homem passa a ver o mundo de uma forma nova. É assim que eu me sinto depois de ler mais uma vez o Evangelho de João nessa última semana. Um homem ainda mais revigorado e participante ativo de uma realidade cada vez mais modificada.
Hoje, depois de já ter lido os escritos de João por tantas vezes, eu não tenho medo algum de cantar:
“Bem pouco importa eu habitar
Em alto monte, à beira-mar,
Em casa ou gruta,
Boa ou ruim,
É sempre céu
Com Cristo em mim”.