Porque Deus não é o número 1.

on sexta-feira, 19 de junho de 2009


Weslei Odair Orlandi


Por muito tempo eu ensinei que Deus deve ser o número 1 da minha vida e que todas as coisas devem se tornar secundária. Mudei de ideia. Não penso mais assim e, portanto, não vou ensinar mais que o topo da lista deve ser o lugar de Deus em nossas vidas. Não se assuste. Não abandone a leitura desse artigo e, por favor, não tire conclusões precipitadas. Eu explico por que. Eugene Peterson diz que nós mudamos as palavras e então elas nos mudam. Isso vale também para os conceitos. Se nós os mudamos eles também nos mudam.
O problema de vivermos essa lógica matemática (Deus primeiro e depois outras coisas) é que passamos a ver tudo como uma hierarquia, uma pirâmide. Se colocamos Deus no topo, o que isso realmente significa? Quanto tempo vamos dedicar a ele antes de podermos cuidar das outras coisas? Deus não pode ser o número 1 da nossa vida porque ele não quer ocupar apenas um espaço de nós – neste caso, o topo da lista. Mesmo que pudéssemos dar a ele o maior pedaço da nossa vida, não é isso que Ele quer. Deus nos quer por inteiro e não apenas parte de nós ou do nosso dia. Ele não quer ser o primeiro numa lista de valores. Ele quer estar no centro de tudo. Ele quer viver conosco todas as coisas.
Você pode até achar que isso não tem importância, mas tem. Especialmente porque vivemos num mundo de pessoas ocupadas. Henry Nowven em seu livro “Tudo se fez novo” afirma que em nossa geração “estar ocupado tornou-se um símbolo de status (...) Ser ocupado e ser importante parecem significar a mesma coisa”. Pensando assim torna-se vantajoso dizermos que não temos tempo pra nada, que estamos com a agenda sempre cheia. Só há um problema: com a mesma intensidade que estamos nos ocupando exteriormente, estamos também nos desocupando interiormente. Estamos cada vez mais cheios, e também cada vez mais vazios; cada vez mais ocupados, e também cada vez mais desconectados. Estamos em todos os lugares, mas nunca em lugar algum.
É aqui que precisamos fazer nossa primeira parada e perguntarmos: E Deus? Se não temos tempo para comer, temos tempo para orar? Se não temos tempo para a família, temos tempo para a Bíblia? Se não temos tempo para ir à igreja, temos tempo para ir ao quarto, dobrarmos nossos joelhos e passarmos um tempo em meditação?
Quando Deus se torna um item da nossa lista e não o centro de tudo esse é o resultado. Não conseguimos viver uma espiritualidade autêntica. Corremos o dia todo, a semana toda tentando completar a lista de serviço para depois tirarmos um tempo com Ele e a conclusão é sempre a mesma: nunca ou quase nunca conseguimos. Reflita sobre esse exemplo prático: o domingo tem se transformado para muitos cristãos um dia de atraso e fadiga física e emocional e não o dia de descanso ou o Dia do Senhor como o era anos atrás. Porém, Deus não pede para pararmos com tudo, para nos afastarmos de nossos compromissos e ir viver numa fazenda longe da civilização ou num mosteiro no topo de uma montanha longe de tudo e de todos. Essa nunca foi nem nunca será a solução.
O que nós precisamos é reorganizar a nossa vida; tirar Deus do topo da lista para reconduzi-lo ao centro de tudo. Esta é a lição que aprendemos com a organização do acampamento de Israel durante seus 40 anos de peregrinação no deserto. Naquele período quando paravam para descansar, o tabernáculo era levantado no meio da congregação enquanto todas as tribos permaneciam à volta dele e inclusive com a entrada das tendas voltadas para ele. É o que determinou o Senhor. “Os filhos de Israel se acamparão junto ao seu estandarte, segundo as insígnias da casa de seus pais; ao redor, de frente para a tenda da congregação se acamparão”, Nm 2:2 (RA). Deus não pediu para estar à frente do acampamento, mas para estar no meio, no centro da vida, decisões e tarefas do povo.
Outro texto digno de nota é Colossenses 1:17. Vejam o que Paulo escreveu: “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”. O que temos aqui é uma declaração inquestionável da centralidade de Cristo ao integrar o universo, sendo o centro de coerência ou de coesão de todas as coisas. Quando se diz mais adiante no mesmo texto que Ele é primogênito, longe de se declarar aí que Cristo foi criado primeiro o que se deve salientar é que ele é o alvo de toda a criação com direito de primogenitura – de herdar todas as coisas. Assim, resta-nos concordar que Deus não pode ser o número 1 da nossa vida senão o centro de tudo. É como se Ele fosse o sol e nós os planetas – aliás uma metáfora silenciosa mas pertinente. Deus no centro, enquanto nós gravitamos ao seu redor.
É pena que Galileu Galilei não tenha sido teólogo. Quem sabe ele não teria nos ajudado saber da centralidade de Cristo há mais tempo. Mas, tudo bem. Cada coisa a seu tempo. Primeiro reconduzimos o sol ao seu devido lugar – um grande avanço; agora reconduzamos Cristo para o centro. Desse modo e somente assim poderemos entender em definitivo o que Paulo pensava quando afirmou “portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” e ainda “quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”, 1 Co 10:31; Cl 3:17.