O (eu) que sou hoje.

on quarta-feira, 27 de abril de 2011

Weslei Odair Orlandi 

Imagine sua vida podendo ser rebobinada, refeita, rebatizada, reorganizada e totalmente repaginada. Todos os seus erros seriam esquecidos; as bobagens seriam superadas; as lágrimas evaporadas; as cicatrizes apagadas; tudo, absolutamente tudo o que foi tragicamente feito seria desfeito.
         Só há um detalhe: as coisas boas também teriam de serem desfeitas. O sorriso apagado, as alegrias sopradas para longe, as emoções afetuosas diluídas e extintas; tudo seria nada. Não restaria existência, a não ser o ponto zero para então recomeçar de novo.
         Se isso acontecesse pergunto, que bom propósito haveria nisso? Qual a vantagem de se apagar tudo o que foi feito na vida?
Outra pergunta: que garantias eu teria de que ao recomeçar (se bem que eu não saberia estar recomeçando, pois para recomeçar é preciso lembrar-se de que começou uma vez, mas até isso foi apagado) não refaria os mesmos caminhos ordinariamente trilhados na primeira vez?
O “eu” que sou hoje não existiria mais, pois se não há memórias não há “eu”. Tudo o que sou, que não sou, que sei ou que nunca saberei é o resultado das minhas memórias e (des)memórias. Eu não consigo sequer imaginar uma vida que não esteja profundamente afetada por tudo que já vivi, comi, bebi, vi e senti. Assim, sem passado, sem fatos e sem experiências eu também não amaria quem amo, não conheceria os que conheço, não estaria onde estou. Ninguém, nada e nem coisa alguma me importaria. Apenas um vácuo, uma folha em branco e um lápis não utilizado é o que seria a vida. Para que eu quereria isso?
Eu sou o que me lembro de mim mesmo e também o que não lembro. Lembro da minha infância, das minhas meninices, traquinagens, fantasias, decepções, alegrias, raivas, etc. e isso me define. Eu sou os resíduos sobreviventes da minha infância, da minha cidade, escola, afetações e influências. Lembro-me de que visitei uma senhora que me ofereceu um caju para comer. Na semana seguinte a bondosa mulher morreu e por isso odeio caju. Se não tivesse ido àquela casa e talvez caju fosse hoje minha fruta predileta. Nunca freqüentei um bom colégio, não li os clássicos senão tardiamente; jamais fui treinado para o mundo das artes e por isso escrever é tão penoso. Tivesse tido a sorte de alguns poucos eruditos e talvez eu não espremesse tanto minha alma para verter algumas poucas idéias para o papel.
Mas e daí? Para que sonhar com impossibilidades? Para que desejar começar de novo? Agora que já não sou mais tão ingênuo, tão imaturo, tão inseguro, por que quereria ter de fazer tudo de novo? A vida não seria perfeita novamente e eu teria que derramar as mesmas lágrimas uma segunda vez; amar e não ser amado; desejar como Tântalo e não poder obter. A timidez hoje sob controle voltaria a ficar desgovernada e minha mãe me obrigaria a comer jiló, tudo de novo.
Não. Que bom que a vida não pode ser rebobinada. Que bom que não dá para apagar o que já foi desenhado, ou melhor, dizendo, rascunhado.
Basta ter chegado até aqui. De tanto olhar para a vida acaba que já estou assim meio vivido e não gostaria de (des)viver para viver tudo de novo. Já escreveu o poeta Manoel de Barros:
"Por viver muitos anos dentro do mato, moda ave
 O menino pegou um olhar de pássaro..."
E eu, de tanto viver dentro e fora da vida, que sou? Quem sou? Que olhar peguei?
Por mais que me custe admitir, já “peguei muitos olhares”, dos quais gosto, desgosto e com os quais me fiz e continuo fazendo. Assim, o melhor jeito para não me achar um estranho esquisito e abominável daqui alguns anos é só redirecionar os olhares. Estes, sem que sejam rebobinados, podem sim, ser reeducados, redirecionados e melhor focados.
Futilidades; tudo futilidades o que escrevi até agora. Ao bem da verdade o (eu) que sou hoje, só posso sê-lo hoje. Amanhã, quem serei (ou não serei) só o dia dirá. Afinal, como filosofou Heráclito, “tu não podes banhar-te duas vezes no mesmo rio, porque águas novas correm sobre ti.”

14 comentários:

leninha disse...

muito lindo e profundo!!! amei

Cleide disse...

Pastor...agradeço muito a Deus por fazer parte dos merecedores em poder ler o que vc escreve. Me fez repensar muitas coisas que por muitas vezes queremos, mas nos esquecemos que tudo que passamos faz parte de ¨NÓS¨. Me fez colocar as idéias com sua lógica existencial, e repensar...que apagar, também significa perder
aquilo que já nao conseguimos ficar sem. Deus abençoe!

gilsonbraganca disse...

Interessantissimo
Deus o abençoe

Ricardo ... disse...

... é interessante, eu de fato estou bem assim !

luciana disse...

muito bom Pastor, gostei, muitas vezes paramos para pensar que se pudéssemos voltar a trás voltaríamos, mas será que valeria a pena, fazer tudo de novo ?
acho que não. que Deus continues te usando para nos abençoar.

Entre Essência e existência disse...

Parabéns pelo blog, meu caro Wesley. Deus te abençoe.
Eliandro

Entre Essência e existência disse...

Parabéns pelo blog, pr Wesley.
Deus te abençoe.
Eliandro

Jean Carlos P. de Souza disse...

Belo texto pastor, parabéns... Penso que os melhores textos são aqueles que saem do abissal de nossa alma...

Deus abencoe
www.jeanyeshua.blospot.com

Marcia disse...

muito bom pastor,Deus o abençõe com muitas e muitas palavras ricas em sabedoria!

Marcia disse...

parabens pastor q Deus sempre o abençõe com palavras ricas e sabias!

Marcia disse...

parabens pastor q Deus sempre o abençõe com palavras ricas e sabias!

Douglas Flores disse...

Olá! Gostaria de dizer que faz algum tempo que leio alguns posts seus, acho muito interessante porque faz o meu estilo. Há pouco tempo criei um blog sobre Deus e gostaria de ter uma parceria com vocês, algo como uma troca de links ou algo do tipo, também peço a permissão para colocar alguns posts seus no meu blog, é claro com os devidos créditos e deixo vocês à vontade para pôr posts do meu blog no de vocês!

Fico na espera e aguardo dessa resposta, ficaria feliz se a parceria fosse atada! Grande abraço e continuem nesse mesmo foco e objetivo em prol do Reino!

www.odeuscontemporaneo.blogspot.com

ERICO FERNANDO disse...

Alo reverendo Wesley to na area...
abraços

Ana Claudia disse...

Olá Pastor Weslei e irmã Adriane, aqui é a irmã Eliane. Graça e paz, estou com saudades de vocês e das crianças.
Agradeço a Deus todos os dias por ter tido o privilégio de servir ao senhor na agradável companhia de irmãos como vocês. Sempre que vier á Umuarama, minha casa estará aberta para recebe-los.