VIVA A LIBERDADE!

on quarta-feira, 19 de outubro de 2011

 
Weslei Odair Orlandi


 “Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne.” (Gálatas 5.13)

          No livro Religião e Repressão Rubem Alves faz a seguinte afirmação: “Os homens são pássaros que amam o voo, mas [que] têm medo de voar. Por isso abandonam o voo e se protegem nas gaiolas”.  Ele está certo. Os homens (leia: cristãos) afirmam amar a liberdade, mas de posse dela por medo fogem e se abrigam em salas escuras prendendo-se com correntes pesadíssimas. A liberdade parece amedrontar milhares de fiéis ainda hoje. Esses são os que ainda detêm a crença de que liberdade e vida santificada não podem caminhar juntas. Também vivi e ajudei propalar essa ideia por muitos anos. Graças a Deus, descobri em tempo que esse não é o ensino claro das Escrituras. Na verdade descobri mesmo é que alienar-se do mundo de tal maneira que todos os “erros” fossem evitados não me aproximaria mais da santidade de Deus e que de modo algum eu me tornaria menos pecador do que aqueles que vivessem livremente.
         De todos os ensinamentos bíblicos que me ajudaram nesse processo de libertação os escritos de Paulo foram de longe os mais importantes. A carta aos Gálatas, em especial, foi como encontrar um cântaro de água em meio ao deserto. Que prazer enorme me proporcionou a leitura de Gálatas 5.1 [“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”] e 5.13 [“Vocês foram chamados para a liberdade”].
         Como é bom poder dizer nesse momento – recorrendo ainda a Rubem Alves – “Deus nos criou pássaros”.
         É um engano, entretanto, pensar que isso já está resolvido na mentalidade de todos. Milhares de homens-pássaros ainda não debutaram seu primeiro voo rumo à liberdade. Ainda vivem enfurnados num mundo de regras e sofrimentos. Mas, por que isso, se a o ensinamento bíblico cristão aponta outros caminhos? Por que ainda restam tantas dúvidas na mentalidade cristã?
         A resposta é simples: muitos ainda não compreenderam a diferença entre liberdade e libertinagem. Liberdade, porém – essa condição de que quem não está preso; de quem não está privado do direito de decidir; de quem não é obrigado a cumprir o desejo de outrem – em nada se assemelha com libertinagem, devassidão e desregramento. Quando Paulo fala aos Gálatas da necessidade de se firmarem na liberdade o que ele tem em mente é a crença judaizante de que para obtermos salvação precisamos de regras pesadas, de disciplinas corporais rígidas, de observância cega às leis e etc. Aos pregadores e aos seguidores dessa mensagem ele diz um retumbante “não”! Mil vezes, não! Nossa salvação não depende de regras forçosas, pois “pela graça somos salvos, por meio da fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus” (Ef 2.8).
         Entretanto, que fique bem claro a todos: essa liberdade não nos dá licença para darmos ocasião à carne. Afinal, fomos chamados para a liberdade [não precisamos mais das leis pesadas do AT para sermos salvos], mas não absolutamente não, não fomos chamados para a licenciosidade, para o pecado ou para quaisquer obras da carne.
          Liberdade e pecaminosidade não são parceiros no exercício da fé cristã. Em outra carta – dessa vez aos Romanos – Paulo indaga: “Que diremos então? Continuaremos no pecado para que a graça aumente? De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele?” (Rm 6.1-2).
  Logo, concluamos: fomos chamados para a liberdade e esta não tem relação alguma com o pecado muito embora ele esteja sempre rondando nossa “casa”.
    Cristo nos assegura sem exceções a liberdade, mas também nos ensina contundentemente a vivermos longe da carne – essa [nossa] natureza humana baixa, ignóbil e continuamente rebelde.  Assim, para que não nos sujemos e creiamos outra vez na necessidade de voltar às gaiolas fétidas da religião repressora em busca de águas purificadoras, dois princípios ensinados por Paulo devem ser avidamente estudados e abraçados por todos.
         O primeiro deles nos ensina que a verdadeira liberdade – aquela sem conchavos com a carne – será sempre “serva” do amor ao próximo:
         “Não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne, ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor”. (Gálatas 5.13)
O que isso significa senão que eu, no uso de minha liberdade, jamais farei qualquer coisa que possa ser prejudicial ao outro e que como servo do amor o meu dever e o meu prazer será continuamente promover o bem coletivo e não a ruína? Sendo livre do legalismo e servo do amor eu jamais farei alguma coisa que sirva de tropeço ao outro (Romanos 14.13-22) o que resultará em indubitável santidade real e duradoura.
Nisso também Agostinho acertou em cheio. Perguntado certa feita sobre o que era permitido a um cristão fazer ele respondeu: “ame ao Senhor Deus sobre todas as coisas, ao seu próximo como a você mesmo, e faze o resto”.
O segundo princípio não menos importante nos ensina que a verdadeira liberdade estará sempre em sintonia profunda com o querer e a ação do Espírito:
“Por isso digo: vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne”. (Gálatas 5.16)
A conclusão lógica e inquestionável só pode ser a de que a liberdade é totalmente possível, pois nada que é feito na direção do Espírito pode acabar em carnalidade. As obras da carne são totalmente más – Gl 5.19-21 – todavia o fruto do Espírito [resultado da Sua ação em nós] é absolutamente saudável – Gl 5.22.
Fica, dessa forma, bastante evidente que o homem-pássaro para ser santo não precisa de regras pesadas, de monitoramento 24 horas ou de quaisquer outros mecanismos de coerção. Quem ama o próximo como a si mesmo e tem profunda amizade e dependência do Espírito jamais se presta ao papel de carnal, ou seja, as virtudes morais oriundas da liberdade e espiritualidade cristã são manifestações totalmente possíveis na vida humana e nada devem às manifestações pecaminosas da velha natureza caída.
Foram necessários anos de caminhada e intensa leitura e reflexão bíblica até que finalmente eu não sofresse mais recaída e horas de dolorosas dúvidas quanto ao teor da liberdade cristã. Mas agora que o grito da liberdade já foi gerado e consumado no meu peito, adeus, gaiolas! Que voem os homens-pássaros. Viva a liberdade!

1 comentários:

Jean Carlos P. de Souza disse...

"Se o filho vos libertar verdadeiramente sereis livres"...
Parabéns Pr. Deus abencoe grandemente!