O CRISTÃO E SUA SEDE POR VINGANÇA.

on segunda-feira, 9 de janeiro de 2017



                                                                                                                                                                       POR QUE MUITOS CRISTÃOS ESTÃO APLAUDINDO DE PÉ OS MASSACRES EM MANAUS, BOA VISTA E O ATENTADO CONTRA O APÓSTOLO VALDOMIRO?



                2017 não podia ter começado pior. Em Manaus 64 presos são brutalmente assassinados, em Boa Vista mais 33. No Brasil 99 presos são mortos em apenas uma semana, mais de 12 por dia. Em São Paulo, dentro da igreja, um pastor é atacado a golpes de facão. Mas isso não é o pior. Ao meu ver chocante e apavorante não é bandidos se dilacerarem como feras raivosas nem líderes religiosos serem atacados por fanáticos e opositores. Ao meu ver, chocante é ver cristãos aplaudindo e até mesmo lamentando os ataques não terem sido tão bem-sucedidos quanto deveriam.
            Bandido é bandido e seu lugar é na cadeia. Isso é fato. O apóstolo Valdemiro não deveria ser apóstolo, seus milagres são questionáveis e seu capital financeiro cheira mal o tempo todo. Isso também é “fato”. Agora, concordarmos com a violência e até lamentarmos o insucesso da barbárie, isso é absolutamente preocupante. Onde ficam nesses momentos os ensinamentos bíblicos sobre “amarmos os inimigos”, “perdoarmos os que nos perseguem”, “não pagarmos o mal com o mal”, “chorarmos com os que choram” e tantos outros princípios cristãos sobre o amor, o perdão e a misericórdia?
            Jesus, quando Pedro atacou o servo do sumo sacerdote que prendia seu Mestre e cortou-lhe uma orelha, foi de uma compaixão e delicadeza tão grande. Reprovou Pedro, curou o servo e aproveitou para ensinar que violência gera mais violência.
            Não creio que esse sentimento revoltoso, apoiador e comemorativo que tem mobilizado a opinião dos crentes em Jesus diante das tragédias sob a égide do argumento de que eles não são boa gente corresponda ao pensamento bíblico-cristão. Vingança ou justiça com as próprias mãos não faz parte do espírito que nos move. Jamais deveríamos nos congratular com a baixeza da maldade. Discordar no campo das ideias, desejar justiça pelos meios legais contra o crime e não aplaudir qualquer ato de violência contra quem quer que seja deve ser o slogan de nossa fé.
            Se um não-cristão como Mahatma Gandhi foi capaz de pregar e viver a “não-violência”, que dizer de nós que somos filhos do Amor, da Misericórdia, da Compaixão e da Bondade. "Olho por olho, e o mundo acabará cego", Gandhi afirmou em certo momento. Seu Madruga, personagem do seriado Chaves, foi muito mais "cristão" ainda ao dizer que "as pessoas boas devem amar seus inimigos".
            Permito-me indagar se não estamos falhando nos púlpitos de nossas igrejas quando vemos nossos discípulos apoiando a desgraça, aplaudindo a violência e ignorando que ser humano algum deve experimentar o ódio por pior que ele seja. Talvez devamos repousar outra vez nossos olhos nas Escrituras e nos recordarmos do que diz Paulo, o apóstolo autêntico, que tantas vezes foi atacado e odiado:
            “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor.
            Antes, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isso amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.

            Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”  (Romanos 12.19-21)